Editorial

Defender a Cultura

00:00 · 11.09.2018

Ainda em clima de revolta e comoção pela perda irrecuperável do acervo do Museu Nacional, no Rio de Janeiro, o País acelerou, de súbito, as discussões acerca da preservação do patrimônio cultural e histórico. Enquanto as avarias do museu se acumularam no decorrer do tempo pela falta de algumas centenas de milhares de reais por ano, após a grande repercussão do incêndio, montantes muito maiores foram rapidamente anunciados.

Por exemplo, logo em seguida ao incêndio, o BNDES anunciou que deve liberar R$ 25 milhões para projetos de segurança e melhorias em instalações de museus. Parte daí um questionamento óbvio: há dotações para lidar com a emergência mas não para prevenir que ela aconteça? Desse modo, fica escancarado que o problema da precarização da Cultura não está relacionado somente à falta de recursos, mas também à completa displicência com essa área.

Claro que, às vésperas da eleição, o assunto acaba sendo explorado politicamente. Quem está no poder, abruptamente, passa a disparar uma saraivada de medidas e projetos para o campo cultural. Os que estão do lado de fora e pleiteiam cargos, por sua vez, prometem convenientemente entregar o oposto do que tem sido feito, ou seja, uma gestão que venha a valorizar a Cultura.

A ambos, falta profundidade nas discussões. Não é num passe de mágica que o abandono cultural no Brasil será revertido. Fazem-se necessários amplo planejamento e estudo técnico. O País precisa de um grande programa para revigorar seus enormes acervos cultural e científico, os quais se enfraqueceram após a tragédia do Museu Nacional.

Igualmente, é preciso esforço no intuito de estimular o consumo cultural. As coleções só atingem a completude de seu propósito quando existe um público ávido por conhecê-las. Para tal, é necessário haver maior promoção dessas atrações. O incentivo deve começar desde cedo, na educação básica, fase em que o despertar para as artes, a história e a ciência se dá de maneira quase espontânea, bastando o encorajamento inicial.

Mais tarde, é naturalmente desafiador ativar o interesse dos indivíduos por museus, principalmente considerando que os brasileiros não possuem por hábito a visitação de suas instalações. Ademais, para um país turístico como este, a conservação e a divulgação de equipamentos culturais tem apelo econômico relevante, uma vez que a cultura faz parte do roteiro dos visitantes.

Com base nos programas de governo apresentados ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), observa-se que a Cultura continua sendo um assunto abordado de maneira superficial. Entre os candidatos a presidente que figuram nas primeiras posições nas pesquisas de intenção de voto, Jair Bolsonaro nem cita o tema em sua agenda; já Marina Silva, Ciro Gomes, Geraldo Alckmin e Lula (que teve a candidatura indeferida pelo TSE) abordam a questão de museus e patrimônio histórico, porém de maneira genérica, não lhe dedicando mais que um parágrafo.

Espera-se que, diante da catástrofe do Museu Nacional, a Cultura finalmente entre com o espaço merecido no debate eleitoral, em especial, na disputa pelos governos estaduais e federal. Mas a tendência é que a atenção ao assunto seja temporária, impelida apenas pelo trauma do incêndio e não, pela situação precária da Cultura. As imensuráveis riquezas destruídas jamais serão repostas, mas é preciso que o sinistro episódio ensine a lição de que a Nação defender o próprio legado histórico, artístico e científico é uma obrigação permanente.

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