editorial

Declive oportuno

00:00 · 27.03.2018

Dentro do que previa o mercado financeiro, o Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central, efetuou mais um corte na taxa básica de juros, de 0,25 ponto percentual, levando-a a 6,5% ao ano, o menor patamar histórico. Para tal, foi considerada a acomodação dos índices inflacionários, fato que vem permitindo as sucessivas incisões na Selic.

Embora, tecnicamente, as consecutivas decisões estejam em consonância com o que se espera do padrão macroeconômico coerente, a busca por alinhar os juros brasileiros com as práticas internacionais tarda em dar resultados pragmáticos para o consumidor.

Conforme mostra a série histórica do Banco Central, de julho de 2015 a agosto de 2016, a taxa regente ficou inalterada em 14,25%, patamar que orbitava entre os mais elevados do globo. Desde então, em 12 ocasiões, o Copom optou por reduzi-la, em cortes que variaram de 0,25 ponto percentual a 1 ponto percentual. O raciocínio era lógico: diante do momento de flacidez inflacionária e estagnação econômica, corrigir, gradualmente, o descompasso astronômico dos juros, criticado profusamente por entidades estrangeiras. No entanto, o mercado de crédito não absorveu a drástica mudança como esperavam a autoridade monetária e o governo federal.

Levantamento da Associação Nacional dos Executivos de Finanças e Contabilidade (Anefac) aponta que os juros cobrados ao consumidor caíram em escala bem menor do que a da taxa básica. Em 18 meses, a taxa do cheque especial declinou apenas 4,8%, enquanto a Selic foi ceifada pela metade. Os juros do comércio (-9,8%) e o empréstimo pessoal (-12,7%) também foram modalidades que resistiram bastante à queda.

Conforme analistas, o crédito segue caro para os consumidores por conta do alto risco para as instituições financeiras. O desemprego elevado e o alto volume de endividamento de parte dos contribuintes mantêm os bancos em alerta, mesmo com a redução da inadimplência. Contudo, a demora na diminuição do juro vai além dos legítimos cuidados que o setor bancário toma ao conceder crédito.

A fraca concorrência e o alargado "spread" bancário são outros fatores que pesam. Este último começou a ceder de acordo com análises recentes do Banco Central e, conforme suas próprias projeções, deverá continuar em curva descendente. De todo modo, a tendência é que, aos poucos, o mercado de crédito se adapte ao novo panorama, o que, cedo ou tarde, favorecerá a economia.

Eventualmente, a cúpula que decide o rumo dos juros básicos deverá cessar a supressão da Selic, mas ainda é incerto quando isso ocorrerá. A última ata do Copom deixa margem para outro circunstancial corte, na reunião prevista para ocorrer em maio.

A manutenção do ritmo é cabível, pois a economia nacional carece de estímulo, e não há base estatística, até o presente momento, que indique perturbações relativas ao desempenho da inflação. Pelo contrário, os índices gerais de preço comportam-se com muita timidez, algo que não é registrado há muito tempo.

Após sustentar por muitos anos o título de campeão mundial dos juros, o Brasil estabelece as bases para se alforriar, em definitivo, da incômoda posição. Com previsão de juro real (descontada a inflação) de 2,5%, ele aparece agora em melhor colocação do que nações como Turquia, Argentina, Rússia e Índia. Se este patamar se sustentar, o País terá a seu favor a estabilidade de um importante pilar para o equilíbrio econômico.

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