EDITORIAL

Custo da imprudência

00:00 · 03.04.2018

Quase dez anos desde que a Lei Seca passou a vigorar, a maioria dos acidentes nas vias públicas ainda é resultado da perigosa combinação entre álcool e direção. Mesmo com o endurecimento das sanções aplicadas, com o aumento da multa cobrada a quem desrespeitar a determinação do diploma legal, motoristas e condutores de motocicletas persistem em colocar em risco a própria existência e ameaçar a vida dos demais atores que compõem o cotidiano do trânsito.

O custo desse ato imprudente aos cofres públicos é elevadíssimo, pois faz o total de ocorrências expandir, e esse crescimento provoca demanda exagerada por leitos hospitalares, além de indenizações, processos judiciais e danos estruturais às ruas e avenidas.

Em levantamento da Prefeitura de Fortaleza, realizado com o apoio da entidade Bloomberg Philanthropies, sediada nos Estados Unidos, revelou-se que mais da metade das vítimas do trânsito atendidas pelo Instituto Dr. José Frota (IJF) ingeriu bebida alcoólica antes de dirigir ou pilotar motos.

Tal constatação ajuda a compreender os dados estarrecedores apresentados por outra pesquisa realizada pelo Observatório Nacional de Segurança Viária (ONSV). No Ceará, em média, mais de 2,2 mil pessoas morrem anualmente em decorrência de acidentes no trânsito e outras onze mil ficam feridas, com lesões graves ou invalidez permanente.

O estudo divulgado pelo Observatório, embora não apresente cálculos do prejuízo financeiro causado exclusivamente pela combinação entre álcool e direção, traz um cenário mais geral desse impacto aos cofres públicos.

Conforme a pesquisa, os custos ao Estado chegam a pouco mais de R$ 3,1 bilhões anuais, considerando que o gasto é de R$ 251,22 por vítima. Na comparação com as demais unidades da Federação, o Ceará desembolsa, por pessoa, a segunda maior quantia do Nordeste. Fica atrás somente do Piauí, que gasta média de R$ 495,23.

Ao avaliar os números relativos ao Seguro DPVAT (Danos Pessoais Causados por Veículos Automotores de Via Terrestre), também se vislumbra a repercussão financeira da violência no trânsito. Na comparação entre janeiro de 2018 e igual período do ano passado, o Estado obteve o maior aumento percentual do País na soma de indenizações pagas por despesas médicas. Em 12 meses, o salto foi de 105 para 229, aumento correspondente a cerca de 118%. Somente a motocicleta respondeu por até 76% das indenizações.

Ações têm sido desenvolvidas para atenuar a violência no trânsito da Capital. As iniciativas contemplam a ampliação da infraestrutura cicloviária, aumento das faixas exclusivas para ônibus, construção de binários e faixas elevadas para pedestres, além da demarcação das chamadas "áreas de trânsito calmo".

Em 2016, pela primeira vez após 15 anos, o total de mortes registradas em um ano ficou abaixo da marca dos 300 óbitos. No ano retrasado, 281 pessoas não resistiram aos ferimentos.

A soma de vítimas, contudo, permanece alta. Reduzi-la ao máximo possível e reproduzir tal trajetória de queda em outras capitais do País demanda planejamento que integre as esferas federal, estaduais e municipais. As iniciativas, quando executadas isoladamente, proporcionam apenas resultados tímidos. É visível o despreparo para o trânsito de grande parte dos motoqueiros, que agem com imprudência e desrespeito às normas. Essa realidade exige medidas de alcance nacional e, principalmente, educação.

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