editorial

Consumo retraído

00:00 · 11.07.2018

As perspectivas quanto ao desempenho da economia foram tomadas pelo pessimismo. O Boletim Focus, relatório do Banco Central com a compilação de opiniões de economistas e agentes do mercado, vem fazendo projeções piores a cada edição. Das últimas dez avaliações semanais, nove reduziram a expectativa de crescimento do PIB brasileiro para 2018.

Em apenas um mês, a estimativa média do Focus caiu de 2,18% para 1,53%. Até mesmo para o próximo ano, as previsões estão se deteriorando. Houve quatro reduções seguidas, a última delas recuando de 2,60% para 2,50%. A avaliação do mercado tem como base o quadro de depressão na economia e de tensão e imprevisibilidade na política.

Um indicador que ilustra bem o enfraquecimento do ímpeto econômico é o consumo das famílias. Esse é o principal dínamo para a retomada do produto interno e vem sendo seguidamente acometido por eventos de grande magnitude, os quais estão dirimindo a confiança dos consumidores. Conforme o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), a projeção de crescimento dos gastos das famílias neste ano foi cortada de 3,4% para 2,3%. O Banco Central também reviu a estimativa para baixo, de 3% para 2,1%.

O consumo das famílias imprime enorme influência sobre a performance total da economia, representando mais da metade do PIB. Logo, a retração de tal indicador funciona como freio imediato para o processo de convalescença, o qual, enfatize-se, já ocorre com impressionante lentidão.

A greve dos caminhoneiros foi um ponto de inflexão. Antes do movimento, o consumo não estava em plena efervescência, mas, pelo menos, apresentava alguma estabilidade. Posteriormente à paralisação rodoviária, o cenário mudou de maneira drástica, como mostram as estatísticas oficiais.

A inflação mensurada pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), do IBGE, registrou forte aceleração entre maio e junho, claramente impelida pelos efeitos da greve. Saltou de 0,40% para 1,26%, a maior alta para o mês de junho desde 1995. O Boletim Focus expõe que a perspectiva para o IPCA no ano avançou de 4,03% para 4,17%. Há um mês, estava em 3,82%.

Outra herança nefasta do movimento grevista é o tabelamento do frete rodoviário, o qual configura barreira onerosa para o setor produtivo. A despropositada concessão prejudica a geração de empregos, encarece produtos para o consumidor final e se mostra antagônica às boas práticas do livre mercado.

A perturbação inflacionária era o que faltava para o consumidor se recolher definitivamente. Importa ressaltar que ele já observava ao seu redor outros fatores adversos, como o desemprego, a tímida redução dos juros e a constante agitação política. A curva ascendente da inflação é o estopim para a perda de fôlego, sugando o que restava da confiança de consumidores e empresários.

Segundo a CNI, o Índice Nacional de Expectativa do Consumidor (Inec) caiu, em junho, para o menor patamar desde abril de 2016. Um contingente maior de pessoas, diz o levantamento, acredita que a inflação vai aumentar, enquanto a oferta de emprego encolherá.

Neste segundo semestre, é presumível que o mercado interno prossiga em compasso vagaroso, o que ameaça as pretensões de evolução efetiva do PIB. Sem a presença de elementos de otimismo nos quais se agarrar, o consumidor tende a se manter extremamente cauteloso, um mau sinal para indústria e comércio.

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