Editorial

Consumidor onerado

00:00 · 23.05.2018

O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que mede a inflação oficial do País, tem se mantido em patamar abaixo do centro da meta do Banco Central (BC). Mas, na prática, o consumidor se depara com perturbações substanciais nos preços, em segmentos que oneram sobremaneira o seu minguado orçamento doméstico.

A nova política de preços da Petrobras, embora tenha se mostrado salutar para o desempenho financeiro da empresa petrolífera, vem criando obstáculos para milhões de brasileiros. O reajuste diário da gasolina e do diesel, com o objetivo de acompanhar o mercado internacional, acabou provocando mau humor generalizado na população que, a cada dia, vê preços mais exorbitantes sendo cobrados nos postos. De acordo com informações da Federação Nacional do Comércio de Combustíveis e Lubrificantes (Fecombustíveis), de julho de 2017 até a segunda semana de maio, houve 202 alterações nos preços.

Para os cearenses, desde o início da política de correções diárias, em julho do ano passado, a gasolina subiu quase 20% no acumulado, conforme dados da Agência Nacional do Petróleo (ANP). O valor médio do combustível passou de R$ 3,83 para R$ 4,58 em apenas dez meses. Mas há municípios no Interior em que a gasolina é encontrada por até R$ 4,82, diz o levantamento da ANP.

As sucessivas altas no diesel desencadearam uma manifestação nacional de caminhoneiros nas estradas do País. A contar de julho último, a Petrobras elevou o preço do óleo diesel mais de 120 vezes, representando alta de 56%, de acordo com o Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE).

Ademais, concomitantemente, o dólar também disparou. A moeda estadunidense começou a pressionar os preços de produtos essenciais e deve seguir trazendo sobrecarga ao bolso dos consumidores, pois as projeções apontam para a contínua desvalorização do real. Produtos alimentícios que dependem de importação, como trigo, frutas e hortaliças, estão notadamente mais caros. O dólar comercial iniciou o ano com cotação em torno de R$ 3,25 e agora orbita próximo à casa de R$ 3,70.

Por esses motivos, no ângulo de observação dos trabalhadores, o índice geral de inflação não representa a realidade. Para o governo, obviamente, é importante manter o IPCA sob controle, mas a insatisfação popular com os recentes fatos deixou o Palácio do Planalto em estado de alerta.

O núcleo do governo busca soluções para estancar a crise inflacionária dos combustíveis, ao mesmo tempo em que o Banco Central tem agido para impedir que o dólar atinja a estratosfera. A eleição é logo à frente, e essa onda de descontentamento pode custar caro politicamente para o impopular presidente Michel Temer e seus correligionários.

Todavia, pondera-se, nem tudo depende do governo brasileiro. O cenário externo é bastante desfavorável, com a elevação dos juros e a aceleração da economia dos Estados Unidos; e a alta pujante do petróleo no mercado global, por conta, sobretudo, de questões geopolíticas. Ainda assim, dentro de sua alçada, o Palácio do Planalto precisa encontrar meios para reduzir o peso que recai sobre as costas dos contribuintes. Quanto aos combustíveis, um dos principais fatores que contribuem para os preços intoleráveis é a incidência volumosa de impostos e contribuições.

Resta saber se os sedentos cofres da União vão abrir mão das receitas que procedem desta área.

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