Editorial

Consciência financeira

00:00 · 02.04.2018

Gastar menos do que se ganha é um preceito elementar e lógico do cotidiano orçamentários de famílias e indivíduos. Muito se fala, com razão, sobre a necessidade de implementar a educação financeira nas escolas, a fim de que os brasileiros se aclimatem desde cedo aos fundamentos básicos de economia doméstica e finanças pessoais. Mas o desconhecimento não é o único fator que leva ao inadequado comportamento financeiro no País. Pesquisa da Serasa Experian, divulgada neste mês, aponta que 62% das pessoas afirmaram que suas despesas superaram o valor de sua renda em, pelo menos, um mês do ano passado.

Indubitavelmente, dentro desse percentual, está a participação daqueles cidadãos, os quais, por eventos de força maior, como o desemprego, foram obrigados a despender acima do que a respectiva condição econômica permitia. Em situações imprevisíveis e extraordinárias, é perfeitamente compreensível, sobretudo considerando-se a camada com menor potencial aquisitivo, que o quadro fuja temporariamente do controle. Mas, a julgar pela enorme proporção de consumidores que admitiram gastar mais do que recebem, nota-se que a falta de planejamento e consciência é outro fator de peso. Afinal, é primário supor que a população adulta entende como deve proceder nesse caso; contudo, na prática, não o faz.

A ausência de organização no que tange às finanças pessoais coincide com o elevado nível de inadimplência. Conforme levantamento do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) e da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL), em fevereiro, 61,7 milhões de brasileiros estavam inadimplentes em fevereiro, o equivalente a pouco mais de 40% da população adulta do País. Houve crescimento de 2,7% sobre fevereiro de 2017 e de 0,5% sobre janeiro deste ano.

Tal situação é um dos aspectos impeditivos à queda mais forte dos juros praticados pelas instituições financeiras, mesmo com a estratégia do Banco Central de cortar a Selic consecutivamente. No geral, o consumidor só verá taxas efetivamente menores, quando o painel macroeconômico menos arriscado indicar que os detentores do crédito poderão concedê-lo com menor risco.

A pesquisa da Serasa Experian aponta ainda que os conhecimentos da população sobre finanças domésticas não evoluíram ao longo dos últimos anos. A nota da avaliação em 2017 foi a mesma obtida em 2015: 6,2. O resultado é uma média geral entre três pontos analisados: atitude, conhecimento e comportamento. Os entrevistados (37% deles) afirmaram também que fizeram cortes no orçamento em 2017. Outros 23% buscaram fontes adicionais de renda para sustentar as contas; e 10% pediram dinheiro emprestado a amigos e familiares.

Tais condutas reforçam a dificuldade do brasileiro em se adaptar às condições adversas na economia. O ano de 2017 marcou o início da recuperação após as cruciantes perdas dos dois ciclos anteriores, mas os trabalhadores ainda apelam a medidas inusuais para se encaixar. Enquanto isso, nem durante nem depois da crise econômica, o governo moveu-se para informar a população sobre os fundamentos das finanças pessoais.

O cidadão que tentar puxar pela memória a última vez que houve uma grande campanha midiática feita pelo governo federal no sentido de elucidar sobre o assunto provavelmente falhará. Enfim, tanto o lado do Executivo quanto o da sociedade têm suas parcelas de culpa na forma inadequada com que boa parte das pessoas lida com o dinheiro.

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