Editorial

Confiança abalada

00:00 · 01.06.2018 / atualizado às 00:36

O acúmulo de prejuízos ao comércio, à indústria, à agricultura, ao setor de alimentos e a todos os demais da economia, em decorrência da paralisação dos caminhoneiros, abalou a confiança geral quanto à possibilidade de se alcançar uma recuperação vigorosa do PIB (Produto Interno Bruto) e de se manter a inflação sob controle nos próximos meses.

Após o aquecimento das vendas no comércio varejista durante o fim de 2017 inspirar projeções otimistas em relação ao ano corrente, a retração de 0,13% da atividade econômica no primeiro trimestre, apontada pelo Banco Central, somada a outros fatores que simbolizam um ambiente nebuloso, já havia esfriado as expectativas positivas. Com o impacto da greve, que se estende por mais de uma semana, ampliaram-se as incertezas acerca de quanto tempo será exigido para reverter seus efeitos danosos.

Esperava-se para 2018 crescimento do PIB de até 4%, mas o cálculo dos economistas aponta que a evolução deve ficar em torno de apenas 2%. Tal rebaixamento é motivado, especialmente, porque o desempenho da economia depende bastante dos resultados neste primeiro semestre, e são raros os elementos que sinalizam rápida melhora nos indicadores sobre desemprego e inflação, além da alta do dólar motivada pela instabilidade no mercado internacional. Todos esses componentes influenciam o nível de consumo, o principal item considerado no momento de quantificar o Produto Interno Bruto.

O índice de desemprego no Brasil, embora tenha recuado para 12,9% no trimestre encerrado em abril, continua numa escala inadmissível. O percentual ainda equivale a aproximadamente 13,4 milhões de pessoas desempregadas, segundo levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), por meio da pesquisa Pnad Contínua. De fevereiro a abril, em comparação com os três meses anteriores, cerca de 1 milhão deixou de ter uma ocupação.

Vale ressaltar que, mesmo com a alta do desemprego, a decisão do governo federal, no ano passado, de liberar o saque das contas inativas do FGTS, trouxe fôlego ao consumo, bem como o comportado patamar da inflação, que aliviou o orçamento das famílias e se tornou estímulo para elas irem às compras. Em 2018, todavia, não se vislumbra nenhum mecanismo semelhante com força suficiente para gerar a mesma repercussão em cadeia na economia.

Ademais, com a paralisação dos caminhoneiros, durante quase um terço de maio, a circulação de mercadorias pelo País ficou comprometida, ocasionando desabastecimento que funciona como gatilho para a disparada dos preços. E essa escalada nos custos, segundo análise do mercado financeiro, possivelmente irá interferir nos indicadores inflacionários referentes ao mês.

No Ceará, tais efeitos se tornaram visíveis nos supermercados, com algumas prateleiras vazias à espera da chegada de produtos e itens, como a batata inglesa, cobrados a preços elevados. Conforme a Associação Cearense de Supermercados (Acesu), as vendas do setor durante os primeiros oito dias de paralisação ficaram em torno de 20% aquém do aguardado para o período.

A mudança de cenário impõe às autoridades a responsabilidade de segurar a inflação e garantir que os maiores ônus da crise não recaiam injustamente sobre o consumidor. Todas são medidas necessárias para impedir a perda do avanço no processo de recuperação que vinha permitindo às famílias, ainda que lentamente, resgatar seu poder de compra.

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