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Um ato de liberdade

Debates e Ideias

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00:00 · 03.06.2017

Um dos símbolos mais importantes do nosso Estado, o Brasão, traz em uma de suas imagens a figura de uma jangada, uma pequena embarcação de madeira, das mais rústicas e primitivas, tão nobre, feita de pau a pique. Segundo Câmara Cascudo, é a embarcação mais antiga do mundo. Na famosa carta de Pero Vaz de Caminha, ela é citada velejando no nosso litoral pra lá e pra cá.

A jangada sempre fez parte da paisagem do Ceará, representando a coragem e bravura do cearense. Assim como o jangadeiro, os dois foram cantados em versos e prosas pelos cancioneiros e poetas. Penso eu que uma jangada não se compreende sem um jangadeiro como do outro lado, o jangadeiro só se sente realizado quando se acha velejando uma jangada. Foram eles dois protagonistas dos mais importantes acontecimentos da história do Ceará.

Em 1888, na grande seca dos três oitos, quando uma multidão de famintos partiu para a capital do Estado, sendo recebidos de portas fechadas pela grande maioria da população, eles dividiram o peixe, numa grande manifestação de solidariedade humana. Foi em 1884, de cima de uma jangada que o jangadeiro Chico de Matilde gritou bem alto: - Nesse porto não se embarca mais escravos!!! Realmente, a partir daquele dia, no Porto de Fortaleza, não desembarcou mais nenhum escravo.

Logo após este ato, vários abolicionistas cearenses partiram numa viagem de navio de Fortaleza para o Rio de Janeiro, na ocasião capital do Império, para participar de um movimento abolicionista, levando em cima da embarcação uma jangada e jangadeiros para chamar a atenção das autoridades para a situação dos escravos.

Acreditem, aquela embarcação em alto mar foi abençoada pela providência divina e todas as forças da natureza se compuseram a ela, nem de bússola precisavam, pois iam sendo guiadas pela ave dos mares, o albatroz. Até as figuras mitológicas compadeceram e se alinharam àquela missão; a embarcação ia sendo puxada por um cavalo marinho, montado pelo grande poeta dos escravos, Castro Alves. Um dragão ia assoprando de leve o barco e das águas verdes, cor de esmeralda, emergiu uma linda sereia empurrando a embarcação, e foi assim que aquele navio ia deslizando na imensidão do oceano em direção à capital do império, levando a mais nobre de todas as lutas da história do Brasil, a Abolição da Escravidão.

No Porto do Rio de Janeiro, uma multidão estava à espera e quando avistaram, de longe, a jangada de pau e os corajosos jangadeiros em cima daquele navio, no meio daquele cenário belíssimo, a emoção tomou conta de todos. Choro, vivas e fogos tomaram conta daquele dia.

E saíram em desfile pelas ruas, até a jangada ia nos braços do povo e, por onde passavam, chuva de pétalas de flores eram jogadas das sacadas dos prédios. Aquela cena causou tanta impressão ao imperador D. Pedro II e à princesa Isabel, que, a partir daí, o Ceará passou a chamar-se Terra da Luz, por ter sido a primeira província do País a libertar os escravos.

E o líder dos jangadeiros, Chico de Matilde, ganhou o apelido de Dragão do Mar e a jangada, meus amigos, além de ficar eternizada no coração do povo, ficou gravada e carimbada na letra do hino mais bonito do Brasil, o hino do Estado do Ceará.

Sérgio Linhares - Historiador

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