Debates e ideias: Trombolíticos

Debates e Ideias

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00:00 · 22.04.2017

O governador Camilo Santana realizou uma das maiores obras do seu governo. Um toque de classe. Uma jogada de mestre. Se não fizer mais nada neste resto que falta, já fez muito. Falo como médico cardiologista. No mês findo, estive no ACC, em Washington, um evento que reúne cardiologistas do mundo inteiro. Comemorava os meus dez anos como membro daquela conceituada academia de cardiologia, e recebi uma medalha que guardarei para sempre. Nesse evento, o foco maior foi a grande incidência das doenças cardiovasculares no mundo, principalmente nos países em desenvolvimento. Em 1949, se comprovou a eficiência das substâncias líticas sobre o trombo. Inicialmente foram usadas no AVC. Os resultados não foram os esperados.

Em 1962, Karl Rentrop, usou Estreptoquinase, via coronariana em pacientes com Infarto Agudo do Miocárdio(IAM). Foi um grande feito. Na década de 1980, juntamente com Angioplastia realizada por Andreas Gruntzig, surgiram os trombolíticos (TL) por via EV. Foi o 1º tratamento eficaz do IAM. Nós, filhos pobres dos sertões de Crateús, tivemos a sorte de realizar a primeira intervenção com TL, no Norte e Nordeste do Brasil, com sucesso, em 1985. O primeiro paciente ainda está vivo. Tio do Dr. Humberto Mororó. Este feito foi reportado pelo Diário do Nordeste.

Em 1986, em Porto Alegre, no Congresso Sul-Americano de Cardiologia, na presença do Dr. Rentrop, mostrei as nossas experiências, que ele nos exaltou, já que nos antecipamos aos maiores centros do mundo. Com o advento da angioplastia no IAM, foi se deixando de lado o uso destas eficazes drogas. Disponibilizá-la para todos, principalmente para os mais pisados e sofridos da sociedade, foi uma das mais felizes ideias do nosso jovem governador. Antes das UTIs, a mortalidade por IAM era de 50%. Com as unidades de tratamento intensivo, caiu para 30%. A experiência no Prontocárdio era de 12%, nos 30 primeiros dias. Saber que nas cidades simples e mais distantes os pacientes terão um tratamento eficaz, que lhes salva a vida, me deixa feliz.

Mas a Sesa tem de dar cuidado especial aos pacientes que fizeram uso dos TL. A droga dissolve o coágulo, o desfecho final do IAM. Esses pacientes devem continuar o seu tratamento realizando cateterismo e tratamento definitivo. Nesta Páscoa, com tantas coisas tristes, esta atitude é divina. Digna da Ressurreição do Senhor da vida. Fazemos pouco, quando fazemos muito para os que sofrem.

José Maria Bonfim de Morais
Médico cardiologista

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