Opinião

Debates e ideias: Sob a cultura do amor

Debates e Ideias

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00:00 · 24.06.2017 / atualizado às 01:11

Refletindo sobre a política brasileira, fico me perguntando onde está aquela sociedade dantes politizada, culta, elegante, que através da Constituinte de 1988 apregoou e instaurou o Estado Democrático de Direito, a liberdade de expressão, o voto direto e, acima de tudo, a submissão aos ditames constitucionais. Será que precisamos anular tudo e voltarmos à metodologia cavernosa, dialogando a pau e pedra?

O direitismo e esquerdismo têm fervilhado na mídia com uma fluência notória e nada melhor que lapidarmos nossas convicções com as palavras e sentimentos que saem da alma, afinal, como seres políticos que somos, precisamos firmar nossos ideais intentando implantar um mundo melhor. Pelo menos é essa a noção da "melhor ideologia aliada à democracia".

As redes sociais poderiam ser veículos ideais para alicerçar a tão almejada democracia, pois nelas encontramos guarida para alardear o som da própria voz, na sua forma mais autêntica. E muita gente tem feito isso, usando e "até abusando" do seu direito de expressão. Entretanto, o que poderia ser a glória, agora se deflagra como uma chaga do mundo virtual.

É bem isso, a sociedade está marcada com uma enorme ferida exposta, a liberdade de expressão inflamou suas próprias entranhas.

O País está dividido por uma faixa imaginária e arraigado por uma mentira tão excêntrica que, infelizmente, contaminou nosso povo. Cada um milita no seu "mundo de verdades intocáveis", e automaticamente, se tornam responsáveis por um frívolo estado de guerrilha, com trincheiras onde, ou você é "petralha" ou você é "coxinha". E basta uma palavra de quaisquer dos lados para o início de um "bombardeio".

Acho isso, no mínimo constrangedor. Não se medem os laços familiares, nem de amizade, nem de coleguismo, nada escapa à pretensa fúria. Parece uma epidemia endêmica crescente e insustentável, em que as autoridades, antes de combater, insuflam ainda mais. E há quem nomine e cultive tal fenômeno como a "cultura do ódio".

Participo de vários grupos nas redes sociais e detenho outros tantos amigos privados, onde conversamos diariamente, e tenho observado a extrema sensibilidade de alguns. Muitos de nós não conseguimos nos firmar em grupos sociais que tenham ideias adversas às nossas, ou armamos verdadeiros barracos ou nos deletamos, nos excluímos, nos anulamos.

É como se existisse a margem da sociedade virtual e nós temos que optar por viver lá ou não. E se optamos por lá, o fazemos para nos preservar. Outros, enfrentam o combate e expõem tratados brilhantes.

Não pretendo aqui, fazer apologia a "abaixar a cabeça e perder conquistas", longe disso. Só acho que devemos lutar contra o sistema político (não falo de partido) que reflete a corrupção, o decréscimo do povo e do desenvolvimento do País, e etc e tal, não contra nosso próximo que conosco sofrerá a mesma praga, não contra o próximo que apesar de pensar diferente, também visa um País melhor. Devemos viver uma democracia, não um estado de revolução e anarquia do ódio.

Não sou nada, muito menos dona da verdade, mas acredito na verdadeira amizade, que é inabalável ao mero contraditório de ideias, acredito no próximo que quer o melhor para todos, não apenas pro seu próprio bolso, acredito na bela teologia do cristianismo, acredito na "cultura do amor".Pensemos!

Gláucia Pontes - Procuradora Municipal de Fortaleza

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