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Debates e Ideias: Festas Juninas

Debates e Ideias

opiniao@diariodonordeste.com.br

00:00 · 08.07.2017

Passada as festas juninas, somente agora veio uma reflexão sobre sua atual existência com apoio da municipalidade. A rigor, todo ano acendem a fogueira de uma velha discussão cujo combustível pretende saber se o poder público deve continuar financiando um evento que tem aparência tradicional, mas é composto de artistas que não representam nenhuma referência do ponto de vista da preservação cultural. E tão logo desaparece a festa, acaba a polêmica, mas a pergunta flutua como balão: dinheiro dos contribuintes deve financiar cantores e intérpretes modernos que já têm espaço garantido na máquina da industrial cultural?

Não sou saudosista, mas gostaria de assistir shows de gente compromissada com o espírito junino do Nordeste, reverenciando seus ciclos econômicos e socioculturais, a partir de manifestações como os aboios, as cantorias, o forró, o baião e o xaxado, em cenários agrícolas, com gastronomias típicas, em feirinhas, com quadrilhas juninas dançando, em autênticas "Noites Brasileiras", o gênero aperfeiçoado por Luiz Gonzaga e Mário Zan.

A polêmica maior rendeu labaredas quando Elba Ramalho fez comentários sobre parte destas manifestações tipicamente nordestinas e destacou a falta do forró junto às festas, citando a presença de outro gênero: a música dos sertanejos. Disse: "no céu, cabem todas s estrelas, ninguém atropela ninguém, porém eu não canto na festa de Barretos. Dominguinhos também não cantava. A festa é deles, é dos sertanejos". E, aí, pelas redes sociais, muitos profissionais da música saíram em defesa, ou em ataque à cantora paraibana.

A princípio, não há nenhuma incoerência quanto ao alerta de Elba, porque realmente há essa invasão dos sertanejos no terreiro dos forrozeiros. Acontece que o problema deve ser resolvido em outro campo, convertido para a área de políticas públicas.

Que tal examinar a Constituição Federal justamente no capítulo dedicada à cultura e, como base no texto, baixar uma legislação que regule a matéria?

Quando o Texto Maior garante os direitos culturais, com conceitos bem abertos do ponto de vista antropológico, preconiza, de forma literal, a proteção das manifestações "culturais populares, indígenas, afro-brasileiras e de outros grupos participantes do processo civilizatório nacional".

Quer dizer: a diretriz constitucional determina o sentido protecionista, conjugando com a preservação daquela manifestação cultural que foi necessária para a nossa formação. Penso, finalmente, que o poder público deve garantir esses festejos legítimos, caros e importantes, através de uma legislação que, pelos menos nos dias de São João e São Pedro, permita que sejam realmente difundidas nossas manifestações mais valiosas, os verdadeiros tesouros imateriais de nossa cultura, dentro do padrão constitucional de preservação e zelo.

Durval Aires Filho. Desembargador

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