COLUNA

Debates e Ideias: F. S. Nascimento

Debates e Ideias

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00:00 · 18.08.2018

Sempre tomei a obra de F. S. Nascimento como responsável pela minha formação literária, no que tange a exegese, no contexto de um Ceará cuja produção se conservava, até a sua chegada, em análises sobre José de Alencar, Machado de Assis, escritores do século XIX e autores do romance regional, não fosse ainda a novidade do "new criticism", quando seus estudos rompem com o impressionismo, marcando seus trabalhos com a ótica objetiva, desprezando, na sua técnica de avaliação estética, critério que não fossem literários.

Lembro-me que a última vez que estive com o escritor foi em 2010, por ocasião do lançamento da segunda edição de "A Estrutura Desmontada", iniciativa do professor Auto Filho, então Secretário de Cultura, em coedição com a UFC, através de uma política editorial que contemplasse o registro e a renovação do nosso patrimônio cultural, com vista ao fomento dos acervos do Sistema Estadual de Bibliotecas Públicas.

Em "A Estrutura Desmontada", F.S, Nascimento procedeu a uma organizada investigação de duas "novelas-reportagens" de meu pai: "Os Amigos do Governador" e "Barra da Solidão", as quais haviam sido resenha no jornal O Estado de São Paulo, pelas inovações incursionadas no terreno da nova ficção. O mesmo empenho se repete em "Três Momentos da Ficção Menor", uma eficiente avaliação moderna do conto no Ceará.

Segundo Fábio Lucas, além da pormenorizada avaliação estética dos processos narrativos de Durval Aires, Nascimento nomeia e classifica os próprios critérios de análise literária e experimenta o seu alcance prático. Quer dizer: sua escrita não se restringe ao trabalho puramente teórico e especulativo.

Nesse intento, os ensinamentos múltiplos sobre a arte da narrativa se revelam importantes, constituindo-se uma das boas contribuições à análise e à interpretação da narrativa no Brasil, ao combinar duas coisas, segundo ainda o crítico mineiro: a serenidade da segurança cultural e o entusiasmo da criação da metalinguagem.

Nessa linha, penso que o sucesso e êxito científico de uma abordagem, ao desmontar uma estrutura, se deve essencialmente ao empenho.

Ao desenvolver o que elaborou, por exemplo, em nível de método, sobreposta a obra literária, é visível em F. S. Nascimento a paixão pela pesquisa, a revelação do acervo extenuante do laboratório que formou no entorno bibliográfico, ao dissecar o texto e revelar sua possibilidades, o que demonstra que, ao percorrer esses caminhos, o crítico é tão fabulosamente criativo e criador quanto o seu objeto: o autor investigado.

Pernambucano de Serrita, F. S. Nascimento foi diretor da Imprensa Universitária e da Divisão de Intercâmbio Cultural, junto ao reitor Martins Filho, que contava como Secretário o poeta Francisco Carvalho e como jornalista meu pai Durval Aires. Autor de vários livros, dentre os quais "A Estrutura Desmontada" (publicada, originalmente em 1972, pela Imprensa Universitária da UFC), "Quadrilátero da Seca" (1988), "Três Momentos da Ficção Menor" (1981) e "Apologia de Augusto dos Anjos "e "Outros Estudos" (1990), além de inúmeros trabalhos que publicou em revistas especializadas.

Durval Aires Filho
Desembargador

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