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Debates e ideias - Crítico: agrimensor ou voyer?

Debates e Ideias

opiniao@diariodonordeste.com.br

00:00 · 29.04.2017

Desde sempre, me incomodou o comentário de que o crítico é um sujeito frustrado no sentido que sabe tudo de arte, sob o ângulo formal, mas não escreve, não pinta, não compõe, não atua, não realiza, não dirige, enfim, apenas critica, compensando, por essas avaliações severas, a sua falta de talento. Nunca me conformei com o rótulo de que ele seria um patético artista fracassado que não deu certo. Apenas uma pergunta silenciaria o bloco dos descontentes com esses profissionais: o que seria das artes sem a crítica?

No meu entender, a crítica não pretende amesquinhar nem o rei, nem muito menos o mendigo. Seu propósito é, como um agrimensor, verificar os limites da obra de arte. Assim, ao realizar a análise do resultado artístico, expende uma opinião, mas não uma apreciação qualquer, realizada às pressas, sob algum tipo de pressão.

Afinal, a crítica verdadeira deve ser judiciosa, baseada em elementos plausíveis, superando o velho subjetivismo.

Mais: após realizar ponderações, pensando questões importantes como indicar se a mensagem é boa, ou o conteúdo é sensato, ou, ainda, se o trabalho é interessante a partir de novas dimensões espirituais, a crítica deve, por fim, revelar em que ponto a obra se ilumina e contribui socialmente.

O problema de tudo isso surge quando a avaliação não atende as expectativas do artista analisado e frustra os seus propósitos de apresentar o melhor de si do seu eu artístico. Tensões e confrontos são comuns, normalmente quando o trabalho foi considerado ruim, ou a avaliação não resultou condescendente à obra, ainda que essas avaliações decorram de um rigor metodológico, que, por sua vez, possui o propósito de aproximar leitores mais exigentes.

Aliás, uma coisa não se deve perder em mente: críticos são também leitores, mas leitores de segunda instância, cuja leitura profissional está muito acima do mero consumo artístico.

A qualificação de leitor de segunda instância, explico, decorre do fato de que o público ledor, de um modo geral, se torna cúmplice da obra, tomando-a por um sentimento de pertencimento.

Tudo acontece como se ele, ao incorporar o romance, fosse um escritor que encontrou um livro pronto, igualzinho ao que gostaria de escrever, enquanto o crítico recusa essa cumplicidade, tendo em vista os diversos aspectos formais, além de sua posição profissional, que tem a missão de "bater o martelo" sobre a obra de arte.

O fato é que, em vez de se tornar confidente, o crítico afasta essa aproximação de amante e torna-se um voyeur do trabalho artístico, observando, com objetividade, às vezes clandestinamente, todos os percalços, procurando estabelecer pontos positivos, virtudes ou descobrir mistérios e desvios, elaborando, com atenção técnica, um texto circulante, algo congênere ao ensaio, uma espécie de "envoltório fendido", agrade ou não seus criadores, fãs e dissidentes.

Durval Aires Filho - Desembargador

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