Coluna

Debates e Ideias: Candora esperança

Debates e Ideias

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00:00 · 20.05.2017

Pode ser caminho ou atalho. Pode ser luz ou penumbra. Lago sereno ou mar em procelas. Pode ser rica ou pobre. Pode ser alegre ou triste. Pode ser silenciosa ou esfuziante. Mas quando a mulher se veste de mãe, é sempre um santuário de esperança. Pobres e abandonadas, mas cheias de esperança. Esperança em si, e, no outro. A vida só pode se viver se a enchemos de amor. A mãe vai além, muito além. Ela se esvazia por inteiro para que o outro se encha. É o próprio amor de Deus. O amor de mãe é concreto. Não é o amor de poemas. É o amor vivo. Palpitante. Peito e alma abertos. O amor concretude.

Neste maio, Alaíde Bomfim ultrapassa o umbral centenário. Fecha-se um ciclo e ela se perdura na esteira do tempo. Arqueada, miudinha, passos contados, farto sorriso, olhos de brilho e de meiguice, ela chega aos 101 anos de vida. Alça a um patamar em que a vida é quietude. Placidez e ternura. Voo cruzeiro. Conta e reconta os dias com uma leveza de quem vive feliz. "Felix et senex". Professora dedicada, esposa extremada, mãe presente, Alaíde nos seus escritos dizia que a esperança é a maior de todas as virtudes. Ariano Suassuna dizia: o pessimista é um chato, o otimista é um bobo, bom mesmo é o realista esperançoso. Ao perder seu pai tão precocemente, pôs toda sua esperança no estudo. Foi ser educadora. Missionária do saber, foi disciplinar nas paragens mais distantes. Mas do que ensinar letras, ela ensinava a vida. Trazia para seus alunos a beleza da Criação. Marcada pela graça e pela libertação.

Ensinava a solidariedade, o acolhimento, o abraço afetuoso e o sorriso da paz. Ela proclamava o evangelho da partilha, da humildade e o evangelho sublime do amor. Fazia de sua aula um panegirico da vida cristã. Eliminou a palmatória. Pois inundados pelo convívio amoroso, os alunos foram um a um devolvendo aquilo que recebia: amor. Hoje já tão distante ela recorda com saudade estes momentos em que ela foi mãe e mestra. Foi amiga e companheira. Como mãe, nada mudou. Continuou amando como amava, ensinando como ensinava, pregando o que pregava. Se na sala era o monte das bem-aventuranças, a sua casa tornou-se um Tabor. Mesmo que hoje vivamos nesta estação amorosa, mas quem nos trouxe até aqui foi a candora esperança. O seu outono é para nós muito mais que uma doce primavera. Cheia de esperanças. Parabéns.

José Maria Bonfim de Morais
Médico cardiologista

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