Coluna

Debates e Ideias: A pobreza dói!

Debates e Ideias

opiniao@diariodonordeste.com.br

00:00 · 10.06.2017

Ela estava velhinha, já ultrapassando a barreira dos 90, mas lúcida e muito religiosa. Costumava comentar comigo algumas reminiscências que julgava me interessar. Numa manhã de sábado, sentada numa cadeira de balanço na sua residência, onde aguardava as amigas, recordou a distante história de uma pobre menina chamada Marlene. Procurei apurar os ouvidos para ser testemunha de um fato singular, que aqui repasso: "No início dos anos 1950, num terreno devoluto (entre o Cercado do Zé Padre e as Cambirimbas), próximo à Praça São Sebastião, brotou da terra, como uma aparição fantasmagórica, um vilarejo desarrumado de quase meia centena de tapiris.

Eram pequenas palhoças, onde se refugiavam mulheres jovens que fugiam da braba seca que afligia o interior e vinham tentar sobreviver na cidade grande, também cheia de mazelas. Sem água, sem saneamento e sem qualquer dinheiro, é fácil concluir o estado de saúde e de higiene em que passou a viver aquele aglomerado. Além de tudo, ali grassava uma doença causada por uma pulga que penetrava na pele formando bolhas, ulcerações e grande coceira, denominada "bicho-de-pé". (Se fosse hoje, por certo, prefeririam mercadejar o corpo na Praça do Ferreira, onde há melhor clima e sopas gratuitas à noite).

Em pouco tempo, aquelas mulheres ficaram em estado deplorável, implorando socorro à vizinhança. E foi assim que uma jovem, já sem forças, bateu à nossa porta pedindo socorro. Acolhida com a proverbial bondade da minha irmãzinha, foi alojada e imediatamente passou a ter retiradas, com ajuda de agulhas, algodão e querosene, aquelas imundas lêndeas, a maioria infectada, que lhe causavam febre alta. No fim de três dias, contabilizara-se 104 "bichos-de-pé" distribuídos pelos mais inusitados locais do corpo.

Dois dias depois, a moça quase recuperada despede-se, agradecida, para retornar a seu interior. O tempo passou e o fato já fora até esquecido quando, numa manhã, alguém bate à porta. Apresenta-se uma jovem mãe de feições sadias e com um sorriso: "Sou a Marlene e aqui estou para agradecer a santa que me salvou. Casei há um ano, e estou trazendo minha filhinha para ser batizada. O nome dela será o da senhora: Margarida". Juro que naquele momento sufoquei um soluço na garganta.

Rui Pinheiro Silva - Coronel reformado do Exército

Últimos Artigos

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.