Debates e ideias

Clonagem musical

Debates e Ideias

opiniao@diariodonordeste.com.br

00:00 · 24.06.2017 / atualizado às 01:08

Nunca acreditei em volume, mas em conteúdo artístico. Números não são determinantes, senão para a quantificação de dados. A dupla Roberto e Erasmo Carlos têm uma dúzia de composições interessantes, que "bateu" fundo na preferência, entre as várias centenas de composições.

"Detalhes" é peça única, mas a maioria de suas músicas são trabalhos arranjados para o mercado. Tem uma gravadora à espera. Existe um segmento comercial inteiro a cumprir, com Roberto, seus objetivos. E os plágios, as coincidências e as espertezas musicais?

Roberto, o eterno rei, é um grande intérprete. Como José Luis Perales, que ganhou 100 discos de ouro, eu nunca parei de apreciar "Por qué te vas?". Para mim, Perales não precisava ter feito mais nada.

Aliás, em matéria de gosto, nos anos 1970, minha discografia se resumia em um único LP duplo: Clube da Esquina, de Milton Nascimento, juntamente com os artistas mineiros. Depois, de costas para o Brasil, passei a ouvir Simon & Garfunkel. Bob Dylan e o trio Crosby, Stills e Nash, quando já eram conhecidos, mas chegaram com atraso, para mim, sem interesse com o tempo.

Parece, então, que o lance é o perfil. Não é necessário que o artista produza muito para formar preferência. Basta uma única peça para formatar rosto e alma. Outros podem apresentar o pacote completo, a exemplo de Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro e The Beatles.

Louvo também Belchior, com todos seus discos a partir de "Alucinação", mas sempre invoco o primeiro trabalho, "Mote e Glosa", de 1974, devido aos arranjos de Marcus Vinícus, sua voz intimista e marcadamente pessoal, que legitimou Bel para sempre. Chico Buarque de Holanda tem um acervo imenso. Marcou suas músicas com um conteúdo histórico e social.

Produziu composições inesquecíveis, mas não devemos esquecer que, a maioria delas, foram compostas em função de peças e roteiros. Existia uma sinopse, um caminho a desafiar sua sensibilidade e o fato, ainda, de contar com parceiros notáveis.

Por sinal, essa possibilidade de parcerias, com diferentes músicos, também explica o talento de Fausto Nilo e tantos outros compositores nacionais.

Quanto à indagação inicial, parece não ter tanta relevância, pois as artes sempre se nutriram do "ctrlc" e "ctrlv", desde os tempos do Crátilo, portanto, as cores do sofrimento sempre tiveram muitos endereços.

Como diz um poeta: "quando cheguei aqui, outros já haviam chegado antes". Não é adequado, então, falar em plágio no espaço digital. Tudo é resultado e compartilhamentos. Afinal, quem julga é o público, agora em rede, se arquiva a peça artística no "HD afetivo", ou se deleta por falta de qualidade, gosto e apreço.

Durval Aires Filho - Desembargador

Últimos Artigos

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.