Artigo

Alice e Carreras

Debates e Ideias

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00:00 · 03.06.2017

Há um ano embriagados de esperanças, partíamos com Rosane Alice para São Paulo. A doença voltara. Mais branda. Mais mansa. Mas estava em ebulição. O grande médico Fernando Barroso apontou para o Albert Einstein. O Einstein tem ligação com o MD Anderson, em Houston, o maior hospital de câncer do mundo. Partimos não como exilados. Não como degredados. Não com fugitivos. Partimos como peregrinos. Silentes, pois os grandes frutos crescem no silêncio da noite. E aquela era a noite com a estrela da esperança. Nossa umbra era o carvalho de Mambré, onde descansávamos para partimos para o deserto da nossa dor. E ali pedimos que Deus se detesse para ouvir o nosso pedido. Partimos com humildade. Sincera humildade. Humildade vem de húmus. E a fé esperançosa era o húmus que faria brotar a nova vida em nós.

Se alegria é partilha, a dor também o é. Chegamos na capital paulista numa tarde cinzenta e muda de outono. Com as folhas já se despregando das árvores, quase nuas. Era fria à tarde que nós semeamos de esperança. Sabíamos que atravessaríamos uma longa noite de espera. Mas não estávamos só. Deus dividia conosco este esperar certeiro de que tudo daria bem. No dia seguinte, fomos a igreja do Sagrado Coração de Jesus, e Pe. Avelino nos abençoou. E quando começamos a nossa jornada encontramos um serviço feito para ajudar. Soerguer. Fazer viver. Dr. Nelson Hameshelak foi médico, foi pai, foi amigo. Foi sábio e foi simples. E vi que Deus estava conosco. Passado um ano, o catalão José Maria Carreras está em Fortaleza. Falando de uma vida feita de música.

Ele também teve a mesma leucemia de Alice. Se foram irmãos na dor, foram irmãos de esperança e hoje se assemelham pelo tom de alegria que enfeita e enternece a vida. Alice e Carreras são os acolhidos por Deus para juntos partilharem sua graça. Carreras faz uma campanha para que os pacientes com leucemia tenham o tratamento melhor. Alice não se furta de ajudar. De encher a vida de alegria e de esperança. No silêncio da sua dor, escreveu um livro e, hoje, a Editora Chiado de Portugal se propõe a editá-lo, em todo Brasil e Portugal. É assim que Deus é caminho e solução. Sempre vida e paz. E antes de retornar à faculdade, ela encontra uma porta que Deus na sua dor abriu para ela. E ela vai agradecer semeando e cultivando esperança onde somente se escuta gemidos.

José Maria Bonfim de Morais - Médico cardiologista

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