EDITORIAL

Cidades desenvolvidas

00:00 · 04.07.2018

A recessão econômica imprimiu efeitos devastadores ao desenvolvimento dos municípios brasileiros. Esta é uma das conclusões do estudo divulgado pela Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan), com o Índice Firjan de Desenvolvimento Municipal (IFDM). O levantamento, publicado anualmente, considerou informações oficiais acerca de saúde, educação, emprego e renda, relativas a 2016, ano de forte instabilidade política, em que houve a troca do comando do Executivo federal após o impeachment de Dilma Rousseff.

Depois das quedas em 2014 (0,6672) e 2015 (0,6509), o índice voltou a subir em 2016 para 0,6678. Conforme os parâmetros da pesquisa, quanto mais próximo de 1,0, maior o grau de evolução das cidades. Não obstante o primeiro avanço após dois anos, o indicador apenas voltou ao patamar de 2012, indicando que a severa crise impediu o País de fincar os pés no desenvolvimento.

Houve redução significativa no número de municípios com alto padrão. Em 2013, antes de a recessão eclodir, 654 cidades (do universo de 5.471 pesquisados) gozavam de elevado desenvolvimento. Três anos depois, a quantidade caiu para 431, encolhimento de 34%. O declínio expõe a fragilidade dos indicadores sociais e econômicos de muitas localidades. Nota-se que, mesmo após auferir resultados expressivos, boa parte das cidades mais evoluídas não conseguiu manter a qualidade de vida para seus habitantes, uma vez que não estavam preparadas para a intempérie.

No entanto, frise-se, tais municípios ainda são exceções. Representam apenas 7,9% do total. A maior parte dos examinados (3.743) apresentou desenvolvimento moderado em 2016. Outros 1.286 registraram índice regular, enquanto apenas 11 foram classificados com baixo desenvolvimento.

Tal qual ocorre com vários indicadores importantes, o IFDM também mostra as divergências consistentes entre o Norte/Nordeste e o Sul/Sudeste. Aponta a pesquisa da Firjan que o Norte tem 60,2% dos seus municípios com desenvolvimento baixo ou regular, enquanto o Nordeste possui 50,1% de suas cidades em tal patamar. Já no Sul, 98,8% das cidades foram identificadas com desenvolvimento entre moderado e alto, nenhuma delas tendo índice baixo. No Sudeste, 92,9% dos lugares avaliados tiveram índice entre moderado e alto, também nenhum teve baixo desenvolvimento. No Ceará, apenas três cidades obtiveram nota alta: Eusébio, São Gonçalo do Amarante e Sobral.

As consequências da recessão foram ríspidas em todas as áreas, mas no mercado de trabalho o impacto foi mais evidente. Em torno de 60% dos municípios brasileiros eliminaram empregos formais em 2016, incluindo capitais e grandes polos econômicos.

A turbulência foi tão devastadora que, ainda que o índice de emprego e renda do IFDM aumente, nos próximos anos, a uma taxa média de 1,5%, o País regressará ao nível de 2013 apenas no longínquo ano de 2027.

Conforme os pesquisadores, é provável que o Brasil tenha perdido mais de uma década no desenvolvimento do mercado de trabalho de seus municípios. Essa foi a pior herança da crise econômica. E, justamente por isso, é nesse campo que devem ser concentrados os principais esforços da administração pública, em todas as esferas, não só a municipal, a fim de acelerar a recuperação do emprego e da renda da população, aspectos imprescindíveis para a retomada do desenvolvimento.

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