Artigo

Biblioteca agoniza

00:00 · 04.09.2018

O poeta argentino Jorge Luís Borges almejava chegar ao paraíso e que o lugar fosse uma espécie de biblioteca em que ele poderia se deliciar eternamente em suas indefectíveis leituras. Com efeito, é no livro que "a treva aprende a ser luz", consoante o verso imorredouro de Correia Júnior.

Para os que gostamos dos livros, constitui uma visão deveras dolorosa vê-los ser tratados como objetos de somenos importância e até relegados a inexorável processo de destruição. Pois é exatamente o que está a ocorrer com um dos mais ricos acervos bibliográficos do Interior do Ceará.

Em Canindé, a Biblioteca Cruz Filho está há algum tempo em lastimável situação. O antigo prédio, situado defronte à Basílica de São Francisco, não tem obtido as bênçãos do santo e muito menos os cuidados do poder público, alheio ao processo de deterioração do edifício, que serviu de moradia ao poeta canindeense, um dos mais importantes nomes da literatura cearense. Ele legou seu acervo particular para uso da comunidade. A desídia e incompetência de alguns dirigentes da biblioteca explicam a situação calamitosa em que se encontram muitas obras - em várias línguas e sobre vários assuntos - que pertenciam ao vate.

Antes em lugar próprio, algum desatinado resolveu misturá-las com os demais livros. A dispensável iniciativa dificulta que alguém pesquise sobre as leituras do poeta. Ademais, em face do ambiente insalubre para livros, principalmente da má conservação do teto aliada a outros senões que cevam os fungos, muitas obras já se perderam ou estão a necessitar de urgente restauração.

Barros Alves - Poeta e jornalista

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