editorial

Benefício circunstancial

00:00 · 10.04.2018

Desencadeado pela ofensiva protecionista de Donald Trump, o conflito comercial entre Estados Unidos e China já começou abalar o mercado internacional. A troca de sobretaxas entre as duas principais potências econômicas do mundo pode ter disparado o gatilho para uma guerra mercantil cujas consequências para todo o globo são ainda imponderáveis.

O temor e a imprevisibilidade gerados por essa tensão vêm reverberando diariamente no mercado financeiro e gerando oscilações fora da normalidade.

Em meio ao fogo cruzado, pelo menos neste cenário inicial, o Brasil pode se beneficiar. Mesmo em períodos de acirramento, nebulosidade e apreensão, há determinados atores que, circunstancialmente, acabam por tirar proveito desse tipo de situação. Neste caso, o ganho comercial do Brasil se dá por uma consequência direta.

Como, no rol de produtos sobretaxados entre os estadunidenses e os chineses, estão itens fortes da pauta agrícola nacional, naturalmente, a demanda pelos produtos brasileiros deverá crescer. Soja, milho, trigo e outras commodities importantes podem potencializar, sobremaneira o agronegócio brasileiro e encorpar a economia de modo geral, ainda que tal fenômeno possa ser apenas temporário. Durante a semana, inclusive, a cotação da soja brasileira disparou, chegando a ser a mais cara do mundo.

O Brasil já possui uma relação sólida com a China. Em 2017, o País exportou o total de 68 milhões de toneladas de soja, das quais 54 milhões direcionadas para o gigante asiático. Neste ano, com os atritos comerciais entre EUA e China, especialistas avaliam que a quantidade comercializada pode saltar para, pelo menos, 74 milhões de toneladas.

Como a China é deveras dependente das importações de soja, deverá adquirir a commodity de variados mercados, a fim de não ficar submetida de maneira restrita ao produto brasileiro. Assim, vizinhos sul-americanos, como Argentina e Paraguai, devem também experimentar aumento nas vendas.

Logo que Trump deu a largada em sua investida protecionista, postura bastante antecipada durante sua campanha presidencial, a primeira medida, que se referia à importação de aço, era maléfica ao Brasil. Todavia, no dia 22 de março, o governo norte-americano informou que suspenderia a imposição de tarifas adicionais sobre o aço brasileiro, o que gerou alívio à indústria nacional.

Até o Ceará, pontualmente, pode lograr vantagens com o panorama atual do comércio exterior. Conforme analistas, a demanda por alguns produtos da pauta local, como é o caso da fruticultura, pode crescer.

Para o Brasil, nem tudo é passível de usufruto diante do combate envolvendo as duas grandes potências. Existem possíveis repercussões avessas para todo o mercado mundial. Na economia internacional estreitamente conectada, quaisquer vibrações negativas, ainda mais quando se fala em dois gigantescos motores produtivos globais, podem acarretar sismos generalizados.

Os temores ficam ainda maiores quando se leva em conta o histórico intempestivo do presidente dos Estados Unidos.

A qualquer momento, novas medidas podem surgir, ricocheteando contra diferentes nações. Portanto, o mercado deve ser bombardeado por contínuas e imprevisíveis perturbações, o que não é salutar para a estabilidade econômica global.

Com essa bruma à frente, o Brasil precisa estar atento, buscando sempre soluções diplomáticas para eventuais conflitos, em defesa dos interesses internos.

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