As pessoas migram para a cidade com a fala e os teréns - Opinião - Diário do Nordeste

Entrevista Rogério Bessa

As pessoas migram para a cidade com a fala e os teréns

22.05.2010

LINGUÍSTA, PROFESSOR e coordenador do Atlas Linguístico Cearense

Lançando o Atlas Linguístico Cearense depois de 17 anos de pesquisa, fica até difícil para o professor Bessa admitir se existe um jeito cearense de falar à luz da antiga Dialectologia e/ou Geografia Linguística. Porém, tenta explicar aos leigos o esforço feito no estudo do ´cearensês´

Há um jeito cearense de falar?

Podemos admitir a existência de um jeito cearense de falar, mas ainda está por ser feito um levantamento completo dos traços linguísticos alocados em diferentes níveis da gramática. Em princípio, estes traços linguísticos, ainda não devida e completamente inventariados, compõem um conjunto de peculiaridades que caracterizam o falar cearense, individualizando-o e opondo-o, por exemplo, ao falar gaúcho ou aos falares baianos. Os "atlas linguísticos" constituirão fontes de indispensável e obrigatório estudo para o levantamento das peculiaridades que singularizam cada falar. Eles proveem evidências que atestarão singularidades, sobretudo, nos planos da "fonética", para não dizer, da "pronúncia" das palavras; do "léxico", onde se depositam particularismos de palavras e expressões; da "morfologia" (tem-se dito que o emprego reiterado de termos na forma diminutiva - ´meu bichim´ - é característico do falar cearense, o que precisa ser comprovado cientificamente à luz de nosso atlas), entre outros.

O que significa Atlas Linguístico e o que representa para o Ceará?

Um Atlas Linguístico é como um atlas geográfico, se assim podemos nos expressar, com a diferença de que, enquanto o último mostra relevos e/ou acidentes geográficos, o primeiro representa os relevos e acidentes da fala e/ou de uma língua em determinada área geográfica. Ter o Ceará já o seu "Atlas Linguístico" representa haver nosso Estado conquistado um lugar no pódio, onde já se encontravam os estados da Bahia, Minas Gerais, Paraíba, Sergipe, Paraná, etc. Ter o Ceará "atlas linguístico" significa também haver atingido um patamar de progresso e de maturação científica.

Fortaleza está fora do mapeamento devido a sua heterogeneidade linguística. É reflexo da globalização?

A "heterogeneidade linguística" não é reflexo nenhum da "globalização". A heterogeneidade linguística, que caracteriza Fortaleza e as grandes capitais brasileiras, é uma decorrência do deslocamento de verdadeiras massas populacionais que deixam o Interior do Estado em busca de melhores dias nas metrópoles e megalópoles. Quando essas pessoas migram para as grandes cidades não vêm apenas com a roupa do corpo e os teréns. Trazem também consigo o dialeto ou a fala característica de sua localidade, que aqui passa a coexistir com outros dialetos vindos com outras levas de migrantes de distintas procedências, fundindo-se todos depois no cadinho linguístico da grande cidade. Esta, em decorrência desta fusão ou mistura dialetal, tem desfigurado ou modificado o seu jeito original de falar. De modo que, cumpre-nos dizer que a heterogeneidade da fala nada tem a ver com perda de cultura. Esta perda ou desfiguração da cultura é que nos parece ser uma consequência de processos opressivos avassaladores como a globalização.

Como as novas linguagens globalizadas, a internet, interferem na linguagem falada?

Temia-se [no final do século XX] que o "padrão global de comunicação", através do poderoso arsenal logístico difusor de telejornais e telenovelas em escalas de âmbito nacional pudesse generalizar-se ao ponto de desqualificar, descaracterizar e tornar menos prestigiosos até mesmo os falares brasileiros de forte tradição histórica. Temia-se muito que uma possível ´globomania´ avassaladora desfigurasse, nivelasse ou extinguisse até essas realidades dialetais mais afastadas e menos prestigiosas. Os programas da Globo difundiram em todo o País termos e expressões característicos de falares do Sul e Sudeste. Contudo, eles não modificaram as estruturas fonológica, morfológica, lexical e sintática dos mais diferentes falares ainda hoje coexistentes no Brasil. A língua como um "todo" e os seus dialetos não se modificam assim com tanta facilidade, porque as referidas estruturas são muito resistentes. Imaginar que "linguagens globalizadas" possam ter o poder e a influência que se quis esperar do chamado "padrão global de comunicação" dará no mesmo. Temos de admitir que o "internetês" é um jargão funcional que bem atende às necessidades e exigências da comunicação entre internautas. Este jargão, que tem nos poderes de síntese e velocidade suas características principais, é sucedâneo da "linguagem telegráfica". Esta nunca interferiu na linguagem escrita nem, muito menos, na linguagem falada. Não é para esperarmos que o "internetês", com todo o seu fascínio e funcionalidade, consiga sequer a proeza da interferência no padrão culto da nossa comunicação escrita. O "internetês" não tem condição de extrapolar o contexto em que se exerce, em que se nutre e em que sobrevive. Fora de seu contexto é como peixe fora d´água. Sendo um jargão não-oral, nenhuma chance tem de interferir na linguagem falada.

Qual seria o traço marcante e presente da linguagem cearense?

Parece-nos ainda difícil assinalar, à luz dos estudos disponíveis. Lembremo-nos de que o "falar cearense" deixou para antigos dialectólogos brasileiros a impressão de "fala arrastada e cantante". Temos, aliás, ainda bem viva em nossa lembrança o que disse António Almeida, o grande foneticista português: perguntou-lhe o repórter o que mais lhe houvera chamado a atenção na "fala cearense" e ele respondeu haver sido o fato de as palavras terem dois acentos.

Qual a função prática deste atlas para os estudos do País?

O Atlas Linguístico do Estado do Ceará tem funções práticas: fornecer dados para a descrição fonológica, gramatical e lexical da Língua Portuguesa no Ceará; e prover elementos para um planejamento do ensino da língua em bases realísticas e científicas. Os dados que fornece servirão de base, por exemplo, para um exame crítico e uma avaliação do material pedagógico. Cremos que os dados, não obstante coletados nos anos-80 do século XX, ainda se preservam como subsídios legítimos do "falar cearense", dando assim uma imagem razoável do ecúmeno [universo] cultural e mental dos cearenses. Assim, o exame crítico do material pedagógico à luz dos dados fornecidos pelo atlas poderá diagnosticar o grau de adequação desse material relativamente às peculiaridades culturais e à estrutura mental da população escolar de nosso Estado. Além disso, os dados cartografados servirão ainda para retificar e/ou ratificar o que tem sido identificado como traços marcantes, característicos do "falar cearense". Contudo, os dados representados no Alece precisam ser comparados com os que se acham nos demais atlas linguísticos estaduais brasileiros. Só assim, poderá ser atribuída "exclusividade" a este ou àquele traço em relação a qualquer um dos falares brasileiros cartografados.

Como são feitas essa coleta e seleção?

A coleta de dados linguísticos é feita através da realização de entrevistas com nativos de uma língua, de um dialeto ou de um falar. As entrevistas podem ser livres e espontâneas para certas finalidades, mas, no campo da Geografia Linguística, elas seguem, no mínimo, um roteiro planejado de relativa extensão e complexidade. Em geral, os dialectólogos preferem realizá-las mediante a utilização de um Questionário, tal como fizemos ao colhermos os dados para a elaboração do "atlas linguístico cearense". As entrevistas são gravadas em fitas magnéticas, sendo os dados, em seguida, transcritos foneticamente e as manifestações fonéticas convertidas em representações ortográficas. A seleção dos dados transcritos para o mapeamento é feita com base no que julgamos ter mais e maior interesse do ponto de vista da descrição linguística e de certas projeções e especulações científicas.

Uma palavra pode mudar de pronúncia no Ceará? Por que isso acontece?

Esta é uma questão que talvez não faça parte da ordem de preocupações de um linguista, mas ele está sempre preparado para enfrentar desafios e imprevistos. Sabe ele muito bem que toda e qualquer palavra de uma língua está sempre mudando e que muda a cada momento.

Existe uma região do Ceará onde se possa dizer que se fala mais errado o Português?

A Linguística de um modo geral e a Geografia Linguística em particular não são prescritivas como o foi a Gramática Normativa. Esta última opera com os conceitos de "certo" e "errado" em matéria de linguagem, tendo como plano de estudo a língua formal escrita. A Linguística e a Geografia Linguística não são prescritivas, pois que se limitam a observar os fatos linguísticos no plano oposto que é o da língua oral.

SAIBA MAIS

ESTÔMAGO - esta palavra tem 14 formas diferentes de ser pronunciada aqui no Estado do Ceará, uma vez que o cearense tem dificuldade em falar palavras proparoxítonas. Outra curiosidade é que a palavra tem uma variação, "estâmago" que aparece na obra de Camões e que se conserva até hoje no dialeto cearense.

Estômago 2 - Aparecem de 14 formas que podem ocorrer: barriga, estâmago, estamo, estômado, estômago, estombo, estôm´go, bucho, estambo, estômbago, estombdo, estombro, estomo , estabo, estômugo

Arco-íris - Pode ser chamado de arco, arco-celeste, arco-da- velha, arco-íri, arcoírio, arco-íris, arcoíro, arquiceleste, oio-de-boi, olho-de-boi, aico-celeste, arco, arco-íli, arcoílo, arco-íri, arcoíro, arcori, arcoí, escama-de-peixe, arca-da-aliança, barra-de-chuva e íris.

Ventania - Pode ser chamado de: aracati, furacão, redemunho, tempestade, vendaval, cicrone, tufão, vento leste, viração, aguacero, geral forte, trevoada, vento forte, vento brabo e vento geral.

Fique por dentro
Sobre o atlas


O Atlas Linguístico do Estado do Ceará (Alece) levou 17 anos para ser concluído, e contou com a participação de oito dos melhores linguistas do País. Além de Rogério Bessa, participaram os professores José Alves Fernandes, José Pinheiro de Souza, Alexandre Caskey, Hamilton Cavalcante de Andrade, Mario Roberto Zagari, Ignácio Ribeiro P. Montenegro e José Carlos Gonçalves.

A ideia de elaboração do Atlas surgiu ainda nos anos 1970, dentro do Núcleo de Pesquisa e Especialização em Linguística, do Centro de Humanidades da UFC. Eles visitaram 67 municípios entre agosto de 1978 a junho de 1981. O Atlas é um estudo aprofundado dos falares cearenses e de como estão distribuídos no território, agregando o patrimônio cultural cearense, com objetivos educacionais, além do linguístico.


ADRIANA SANTIAGO
EDITORA


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