Anita, a mãe benfazeja

00:00 · 08.09.2018

Anita Martins Veras, 95, tornou-se para nós, uma preciosa relíquia. Uma mulher ainda cheia de sonhos e de ilusões. Âmbula cheia de esperança. Um viatico de Paz. Um sacrário de amor. Nunca se casou. Mas emprestou as entranhas do seu coração, para se derramar de amor por todos os seus sobrinhos. Tornou-se a mãe extremada. Cuidadosa. Vigilante de todos. E todos venceram na vida. Morávamos na nossa mesma Pátria, Crateús. Possuíamos a mesma possessão, a Praça da Estação. Naquele espaço sagrado, ressurgia a Estação Ferroviária. O nosso santuário. O nosso chão sagrado. A nossa hierofania. Um templo onde meu pai era o sumo sacerdote. Anita e todos os seus eram nossos patrícios.

A Praça era tão grande quanto os nossos sonhos. A manhã inteira a praça parecia dormir. No pino do sol, todos voltavam das suas escolas e dos seus afazeres. Mas quando a canícula abrandava, nós éramos os donos da praça. E deixávamos ficar até quando a última candeia brilhava. Nas noites de lua, ficávamos apascentando os acontecimentos mais puros e mais simples de uma criança. Neste agosto, o Francisco Humberto, o Betinho, partiu. O querido sobrinho de Anita. Irmão do Jacques, da Raissa, do Pombinha e de tantos outros. Começamos a perder nossos habitantes quando vimos que não era somente a ponte que nos sacávamos de nossa pátria. É que vamos pouco a pouco nos aproximando da morte. Mas Betinho ainda tinha muito a edificar.

Amoroso Lima diz "saudade não é o que passou. Mas o que ficou em nós do passado". Fica em nós aquela felicidade pura. Aquela amizade sincera. Fica em nós esta infância ditosa. Guardamos o nosso gado de osso. Nossa bola de meia. Nossas alegrias de rio cheio. Nossa felicidade de invernada. Um dia, atendo o filho do Betinho. Pequenininho. Doença grave no coração. Também assistido pelo Dr. Alberto Lima. Hoje, Fernando é médico. Cria da Anita. Um véu de tristeza cobre a velha praça. Agora sim, envelhecemos. Como as velhas andorinhas, alçando voos aos céus. Fim do dia. Crepusculava, distante, escutávamos solenes a Ave-Maria. Lá longe, o sol desmaiava. As andorinhas se preparavam para partirem para o repouso. E agora nós, lentamente vamos partindo. Não mais esperando que se apaguem os lampiões da derradeira hora. Partimos em pleno dia. Logo depois do Rossio umedecer nossos olhos de saudades.

JOSÉ MARIA BONFIM DE MORAIS - Médico cardiologista

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