editorial

Altos e baixos do varejo

00:00 · 19.06.2017

Após resultado bastante fraco em março, as vendas do varejo brasileiro reagiram em abril, apresentando desempenho mais robusto e até surpreendente. No quarto mês de 2017, as vendas cresceram 1% sobre março, informou o IBGE, melhor fechamento para abril desde 2006, quando a alta havia sido de 1,1%. No comparativo com abril do ano passado, o aquecimento foi de 1,9%. Ante vários reveses, o comércio pode celebrar esta reação como um bem-vindo alívio, mas o panorama geral do setor ainda desperta muita preocupação.

Nos índices acumulados, as vendas mostram quedas significat ivas, portanto, serão necessárias consecutivas performances promissoras para que se possa retornar à estabilidade. O processo tende a ser espinhoso, alternando aumentos pontuais com declínios, até que a confiança do consumidor e a demanda interna recobrem a energia. Naturalmente, alguns setores sofrerão mais, enquanto outros superarão os obstáculos de maneira menos dolorosa. No caso de abril, os setores-chaves para o incremento no volume de negócios foram os de alimentos e vestuário.

De acordo com projeção da Confederação Nacional do Comércio (CNC), o varejo ampliado, o qual contempla comercialização de veículos motorizados, peças automotivas e material de construção, deve crescer 1,4% neste ano; já para o varejo restrito, a alta prevista é de 1%.

Especialistas até acreditam na melhora do comércio, mas não para o primeiro semestre. Há sólidas dúvidas quanto à continuidade da toada de ascensão para maio. Isso porque foi justamente o mês em que a crise política se apresentou com toda a força, derretendo o otimismo e trazendo de volta suspeitas quanto ao futuro da economia. O mercado, inclusive, não reagiu com euforia ao bom resultado de abril, já levando em conta que o mês seguinte deve desfazer os ganhos.

No curto prazo, o setor ainda se depara com desafios declivosos, os quais se multiplicam com a incapacidade do governo federal de ficar fora das turbulências políticas. Afora esta mácula, são empecilhos também as restritivas condições de crédito, o exorbitante desemprego e o endividamento familiar, tríade que, há muito, impede o varejo de se descolar da recessão.

No caso do Ceará, o setor não pôde contar com o fôlego de abril, o que torna o cenário local ainda mais alarmante. Naquele mês em que, nacionalmente, o comércio conseguir respirar, o Estado assinalou um recuo de 4,6 % no varejo ampliado sobre março e de 7,3% sobre igual período de 2016.

No acumulado dos quatro primeiros meses de 2017, o varejo cearense amarga encolhimento de 4,7% no volume de vendas; em 12 meses, variação negativa de 8,1%. Os efeitos da delação da JBS também causam tensão nesta unidade da Federação, cujo varejo estava mal mesmo antes da contaminação gerada pelo caos em Brasília e pode até piorar. Trata-se de um problema expressivo nesta economia que é tão adstrita ao setor de serviços e dependente do sucesso deste.

O resultado de abril vale para lembrar que o comércio nacional não está esvaído. Estímulos, como o saque das contas inativas do FGTS ou promoções e condições especiais em datas comemorativas, podem trazer melhoras pontuais na atmosfera consumidora. No entanto, ainda parece ser de muitos percalços a vereda a ser trilhada pelo setor até que a crise retroceda.

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