Editorial

Alívio sem euforia

00:00 · 02.06.2018

A quadra chuvosa no Ceará chegou ao fim, e o volume de precipitações no período ficou em torno da média histórica, para alívio da população que ainda convive com os resquícios dos penosos anos de intensa estiagem. A carga d'água nos últimos quatro meses atingiu o melhor resultado desde 2011 para esta época do ano, porém os dados atenuantes não devem justificar o relaxamento das ações para a convivência com a seca.

A situação dos médios e grandes reservatórios hídricos distribuídos pelo Estado evoluiu em relação ao panorama observado no ano passado, mas continua a despertar muita preocupação.

Um dos fatores responsáveis por agravar a complexidade no enfrentamento aos efeitos da estiagem é a distribuição irregular das chuvas nas várias regiões. Durante a quadra chuvosa, assim como já ocorreu em outros anos, as precipitações não se apresentaram de modo uniforme pelo território cearense.

Enquanto o Litoral Norte e a macrorregião do Cariri registraram números acima da média histórica, o Sertão Central, que representa a área mais castigada pela seca, ficou abaixo.

Essa irregularidade das chuvas também se reflete no volume armazenado pelos açudes. De acordo com a Cogerh (Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos), ao fim da quadra, 17 reservatórios estavam sangrando. Ou seja, acumulavam mais água do que comportam. Em contrapartida, outros 83 estão com acúmulo hídrico inferior a 30% da capacidade e cinco continuam vazios.

Os três maiores reservatórios receberam aportes ínfimos. O Castanhão, responsável pelo abastecimento da Região Metropolitana de Fortaleza (RMF), chegou a ter, em fevereiro, volume de água equivalente a 2,1% da capacidade.

Mesmo com a maior intensidade das chuvas, o indicador subiu para somente 8,57%. Já o açude Banabuiú estava com apenas 0,77% em 2017 e chegou ao fim de maio com 7,02%. A pior situação foi observada no açude Orós, cujo volume armazenado caiu de 10,42% para 9,59%. O cenário crítico, portanto, permanece, bem como a urgência em acelerar as obras estruturantes e planejar outras úteis, a fim de proteger a população do risco de a escassez de água acontecer também no próximo ano.

Apesar de localizado no coração do Semiárido, o Ceará não pode ficar indefinidamente na dependência do humor do clima. A execução de alguns projetos será capaz de aliviar a ameaça constante de seca, e a conclusão das obras de transposição das águas do Rio São Francisco é o principal deles. O prazo de sua entrega sofreu incontáveis adiamentos, mas o cronograma vigente estipula o mês de agosto como a data prometida à chegada das águas no Ceará.

O Ministério da Integração Nacional informou que as obras do Eixo Norte têm funcionado durante 24 horas e que o trecho está com 96% dos serviços concluídos. Dentre as pendências, falta a construção da estação de bombeamento que irá impulsionar a água a 90 metros de altura. As previsões para a quadra chuvosa de 2019 são prematuras do ponto de vista científico. Porém, é preciso estar preparado para nova adversidade, sobretudo, diante do aquecimento global e da ocorrência de outros fenômenos naturais. É uma questão de sobrevivência aprender a lidar com os efeitos danosos da seca e essa consciência deve orientar a rotina do cearense ainda quando o flagelo não se caracterize. É inadmissível que a infraestrutura não esteja preparada para enfrentar tanto as emergências como as situações graves.

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