editorial

Alívio na baixa renda

00:00 · 27.04.2018

O arrefecimento inflacionário vem possibilitando a abertura de janelas orçamentárias para as famílias neste cenário de morosa convalescença. Os índices de preços estão batendo consecutivos recordes de inércia, refletindo a fase em que a economia busca se reerguer. No cômputo geral, a inflação está em franco processo de acomodação, mas para algumas parcelas específicas da população, o impacto tem sido ainda mais significativo.

A faixa de baixa renda se depara com os preços mais estáveis. De acordo com o indicador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) de inflação por faixa de renda, a variação registrada para as famílias de menor poder aquisitivo foi de 0,35% no acumulado dos três primeiros meses deste ano, enquanto para as camadas acima o percentual assinalado foi de 1,13%, índice três vezes maior. Nos últimos 12 meses, a inflação da classe mais baixa (1,8%) foi praticamente a metade da anotada pela classe mais alta (3,5%).

Conforme detalha o Ipea, completaram-se cinco meses consecutivos em que o grupo de renda menor sofre menos com a inflação. O motivo principal é o constante declínio dos preços de itens da alimentação básica, os quais influenciam de modo preponderante as finanças das famílias que ganham menos.

O peso de tais artigos é tão grande que nem mesmo as oscilações em outros produtos e serviços, como os relacionados ao transporte e à energia, por exemplo, são capazes de alçar o índice geral.

Esse é o lastro que vem dando fôlego às famílias de estratos econômicos mais frágeis, por mais que, no geral, o quadro não seja favorável. Pode-se dizer que o fenômeno inflacionário em curso é também um dos fatores responsáveis por alicerçar a própria economia brasileira. Seria caótico imaginar a situação financeira de grande parte da população se os preços estivessem em ascensão punitiva.

O fato de, justamente, a baixa renda ser a camada menos corroída pela inflação, pelo menos nos últimos meses, é importante para que indicadores sociais não derretam e que o consumo conserve alguma força.

Trata-se de uma espécie de compensação necessária, ao passo que o desemprego e a perda de massa de rendimento por conta da recessão continuam a afligir milhões de brasileiros.

Conforme projeções de institutos de pesquisa, a perspectiva é que, ao longo de 2018, a tendência atual se mantenha. A regular oferta de alimentos e as safras agrícolas estáveis, no País e no exterior, devem garantir que os preços de produtos essenciais à mesa dos domicílios fiquem praticamente inalterados. Algum impacto extra pode surgir de outros segmentos.

Em que pese o alívio inflacionário, a população de baixa renda necessita de outros desafogos para atravessar o pós-crise. Mesmo com a alta do PIB no ano passado e a inflação baixa, a pobreza extrema avançou significativamente, atingindo 15 milhões de pessoas. Somente entre 2016 e 2017, 1,5 milhão de pessoas passaram a estar nessa situação.

A maior oferta de empregos é crucial para restabelecer os avanços sociais anteriormente conquistados. A alta do PIB não reflete de forma automática no ganho de renda, principalmente a depender dos setores que a impulsionam.

O corrente comportamento da inflação configura um importante paliativo para a população de baixa renda, mas são necessários outros aspectos econômicos a fim de que as camadas sociais mais pobres possam resistir e evoluir.

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