Editorial

Alçando novos voos

00:00 · 18.03.2017

A concessão do Aeroporto Internacional Pinto Martins à iniciativa privada, oficializada após leilão na BM&FBovespa, tende a constituir uma nova fronteira para a economia cearense, com a perspectiva de propiciar incremento em turismo e serviços, segmentos fortes na pauta local que se ressentem de infraestrutura sólida para se expandir. No passado recente, fracassaram projetos com capacidade de potencializar expressivamente o PIB do Estado, cuja participação ante as riquezas nacionais ficara estagnada, em torno de 2,2%.

A refinaria Premium II é o que salta à memória de imediato; megapromessa que se tornou uma desilusão sem tamanho. Como ela, ficaram pelo caminho estaleiro, montadoras de veículos e outros empreendimentos que nunca saíram do papel ou aterrissaram em outros lugares. De concreto, cravou-se a siderúrgica do Pecém, a qual já impele substancialmente a balança comercial e a produção. Na visão de especialistas do setor produtivo, a concessão do aeroporto surge como o segundo marco dos últimos anos. Arrematado pela empresa alemã Fraport por R$ 1,5 bilhão e uma entrada de R$ 425 milhões, o equipamento passará à nova administração no fim de julho e assim deverá continuar por 30 anos.

A concessionária antecipou que as obras de ampliação e modernização do terminal serão iniciadas no começo de 2018. Prometidas para a Copa de 2014, tais melhorias não avançaram sob a tutela do Estado e estão às moscas cinco anos depois da abertura dos trabalhos. Enquanto isso, o Pinto Martins tem uma das piores avaliações na visão de quem passa por lá.

Tarimbada na administração aeroportuária ao redor do mundo, a futura gestora possui no currículo os terminais de Frankfurt, Hannover, São Petersburgo, dentre outros. Espera-se que tamanho "know-how" eleve a qualidade de serviços e a capacidade de voos do Pinto Martins a parâmetros internacionais de excelência.

Regularmente, o cunho turístico do Ceará é limitado pelas deficiências estruturais. O Aeroporto otimizado não resolverá todas essas carências, mas será um passo importante para atrair mais visitantes. Compete à gestão de Fortaleza, das demais cidades turísticas e do governo do Estado, investir para dirimir os demais gargalos que separam o turista de uma experiência satisfatória, como a violência e a falta de saneamento e de qualificação profissional.

Não é só o Ceará que pode se beneficiar com a presença da iniciativa privada nos aeroportos. De modo geral, a rodada de concessões, que elencou ainda os terminais de Porto Alegre, Salvador e Florianópolis, foi considerada bem-sucedida. O governo vai receber R$ 1,5 bilhão de imediato e, nas próximas três décadas, a arrecadação chegará a R$ 3,7 bilhões.

Assinala-se, ainda, uma importante mudança na formulação técnica das privatizações, pois essas empresas assumem a tarefa no modelo livre da presença de tentáculos políticos, financiamentos de bancos federais e empreiteiras gigantes. O padrão pode ser adotado em processos vindouros, mas os desafios são bem maiores quando o assunto é o transporte terrestre, campo no qual a União ainda não conseguiu emplacar.

As arrematações mostram que os investimentos estão dispostos a vir, contanto que haja negócio atraente e sustentável, sem a pesada intervenção estatal. O caminho para içar a infraestrutura, contudo, ainda requer muitos esforços.

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