editorial

Agravante da recessão

00:00 · 31.05.2018

A ameaça da pobreza extrema voltou a pairar sobre o País. Há pouco tempo, a mazela se dissipava progressivamente, na esteira do crescimento econômico e da robusta oferta de emprego. A ascensão de milhões de brasileiros à Classe C foi um marco na organização da estrutura social. Contudo, bastou a recessão para triturar grande parte do que fora conquistado.

As últimas pesquisas expõem o avanço acelerado da miséria, questão que precisa de atenção prioritária das autoridades. Levantamento realizado com base em estatísticas da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua aponta que o contingente de pessoas em situação de extrema pobreza cresceu de 13,3 milhões para 14,8 milhões no ano passado. Aproximadamente, 1,5 milhão de brasileiros passaram ao mais baixo patamar de renda, um atoleiro em que a qualidade de vida é rasteira.

Somente de 2016 para 2017, houve crescimento de 11,2% no assombroso indicador. Dessa forma, os mais pobres passaram a representar parcela maior da população, saindo de 6,5% para 7,2%.

Baseado em parâmetros do Banco Mundial, o estudo considerou extremamente pobres aqueles cuja renda domiciliar "per capita" não ultrapassa os R$ 136 mensais, levando em conta todas as fontes de renda, como trabalho, previdência, aluguel, programas sociais, etc. O número de cidadãos que subsistem apenas com esse valor aumentou em todas as áreas, mas o Nordeste segue como a macrorregião que mais sofre, sendo responsável por 55% do total nacional. Segundo a pesquisa, 8,1 milhões de nordestinos ganham abaixo de R$ 136.

Conforme o Ipece, o Ceará tinha 730,9 mil pessoas vivendo em situação de extrema pobreza em 2017, uma redução 3,57% ante o ano de 2016. O desempenho o coloca como o único do Nordeste a reduzir a miséria no período. A queda foi a quinta mais expressiva do País.

A proliferação da miséria impõe problemas sociais muito graves, remontando a épocas que pareciam superadas. Nessa conjuntura, a fome deixa de ser um fantasma do passado para voltar a atormentar o Brasil, que saiu do mapa da fome da Organização das Nações Unidas em 2014, mas caso as perdas não sejam interrompidas urgentemente, não surpreenderia o ressurgimento de problemas de nutrição severos, os quais marcaram tempos sinistros da história.

O número de indivíduos em situação de rua ou morando em locais insalubres também tende a ser maior. Forma-se, então, o ambiente ideal para a elevação dos índices de violência. Aliás, por se tratar de algo muito recente, ainda faltam estudos que estabeleçam a relação entre a recessão econômica e a eclosão da criminalidade, mas existe um vínculo lógico entre os dois fenômenos.

Uma linha delgada separa a pobreza extrema da violência. Normalmente, a educação e o emprego são elementos essenciais para distanciá-los. Nos últimos anos, o rigoroso encolhimento do mercado de trabalho devastou a situação econômica de milhões de trabalhadores. O sumiço de vagas formais, as quais significavam maior estabilidade para os profissionais, está entre os motivos que mais solidamente explicam o despertar da pobreza. Enquanto as oportunidades disponíveis se resumirem a postos informais e atividades pontuais, fatia expressiva da população viverá o amargo sobe-e-desce da gangorra financeira.

O País precisa da estabilidade econômica e política, reformas em áreas nevrálgicas e de programas sociais, para produzir mais riquezas e, com isso, ter condições de deter a ascensão da pobreza.

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