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A palavra na primeira infância

00:00 · 14.04.2018

A palavra é o primeiro alimento do bebê. É ela que conduz a criança ao desenvolvimento emocional e cognitivo, à construção do imaginário e ao processo de aquisição da linguagem. Em todas as culturas, as crianças se reconhecem, compreendem tempos e espaços, criam vínculos e constroem memórias afetivas por meio da palavra.

Por esse motivo, o direito à leitura e a outros bens culturais deve ser garantido, para que tenham oportunidades de desenvolver as competências de leitura e escrita necessárias ao pleno exercício da cidadania.

O psicanalista colombiano Evélio Cabrero-Parra considera que a linguagem cotidiana tende a ser imperativa, dando orientações e limites sobre o que fazer ou não. A literatura, por sua vez, oferece um novo vocabulário e histórias de outros lugares, perspectivas e possibilidades. Quando um adulto lê para uma criança, ela escuta com maior liberdade e apreende o que necessita.

O afeto e a disponibilidade dos pais são mais determinantes Às práticas de leitura do que a condição socioeconômica. A qualidade das interações e conversas no ambiente familiar favorece a apropriação de ferramentas essenciais para viver e conviver num mundo letrado e a participação efetiva numa sociedade que é mediada pela palavra. As escolas e creches, embora não sejam as únicas responsáveis pela promoção da leitura, acabam sendo um lugar privilegiado para garantir o acesso à palavra, à cultura e à arte.

Recentemente, autores e ilustradores de literatura infantojuvenil e especialistas em temas e políticas ligados à primeira infância, à cultura e ao desenvolvimento infantil trouxeram à tona, durante o Seminário Internacional Arte, Palavra e Leitura na Primeira Infância, a reflexão sobre os diferentes olhares que podem contribuir para ampliar referenciais e inspirar novas práticas. A escritora e educadora Yolanda Reyes, reconhecida na área de formação de leitores, destaca a necessidade de refletir sobre a pedagogia de literatura, que deve dar vazão à imaginação das crianças e jovens para que sejam capazes de recriar o caminho deixado pelas pegadas do criador/autor.

Um de seus questionamentos nos ajuda a refletir: "De onde surgiu esse consenso que obriga todos a sublinharem a mesma coisa em um mesmo parágrafo de um conto, a entenderem rapidamente as mesmas ideias principais e a enxergarem todas as obras a partir de um mesmo ponto de vista?". E sua conclusão: "No fundo, os livros são isto: conversas sobre a vida. E é urgente, sobretudo, aprender a conversar".

Dianne Melo. Gestora do Itaú Social

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