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A arca de Noé do século XXI

00:00 · 15.09.2018

A falsa polêmica sobre existir ou não mudança do clima no planeta é assunto que já aborrece os especialistas da área. Afinal, se a grande maioria dos cientistas diz que sim, e essa maioria estuda e pesquisa nos institutos de maior reputação no mundo todo, por que ir atrás daquela meia dúzia que continua negando o fenômeno? Parece que se há polêmica, então há matéria jornalística, e vale o esforço da cobertura.

Aí reside o problema. Dar atenção ao que não é substantivo é apenas uma opção. Abrir as principais vitrines do mundo na mídia é um ato de grande responsabilidade. Se entendemos que o cenário das mudanças climáticas é para valer, seja porque leu os estudos publicados aos milhares, seja por ter observado os exemplos recentes de eventos climáticos extremos, como as secas e incêndios na Grécia, Califórnia ou Portugal, certamente ficamos curiosos para entender quais as consequências desse fenômeno.

As perdas globais por incêndios atingiram níveis recorde no ano passado - e isso pode piorar à medida que a ameaça da mudança climática cresce. Somos novamente atingidos por uma grande seca no Nordeste e Sudeste do País e a escassez hídrica começa a bater em nossa porta, sem que tenhamos agido suficientemente para combater o problema. Vale a pena ir um pouco além, e investigar as consequências disso, para as diferentes formas de vida. Há cientistas que alegam que estamos vivendo a 6ª maior extinção de espécies da história, numa fase chamada de Antropoceno - a época geológica em que humanos se tornam a principal causa de alterações do planeta.

Estamos perdendo espécies de plantas e animais em grande escala, muitos dos quais sequer conhecemos. Com esse processo acelerado, tornam-se urgentes as ações de conservação ambiental. O lado bom da história é que vivemos um grande despertar de atores que têm se dedicado à restauração florestal e à produção agropecuária sustentável, convencidos de que ainda podemos salvar algumas regiões e espécies de uma devastação ainda maior. Sofremos também com a falta de investimento em parques e áreas de conservação. E é justamente nessas áreas que reside a nossa esperança: milhões de espécies de fauna e flora que podem nos salvar das situações extremas em que o aquecimento global está nos colocando. Estaríamos vivendo um momento "Arca de Noé"? O que falta para a sociedade despertar?

Rachel Bideman
Especialista em Conservação da Natureza

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