Entrevista com Felipão

"Vivemos num mercado que é criação 24 horas”

Cantor de forró com 19 anos de carreira, Felipe, o dono da marca Felipão, ressalta que sempre teve essa visão de construção da marca independente de show
00:00 · 07.05.2018 por Valerya Abreu - Colunista

Uma marca pessoal forte pode alavancar a imagem e gerar muitos negócios, independente do segmento de atuação. Assim como as marcas corporativas ou de produtos, também exigem gestão e a construção é lenta. Esse é o tema da nossa conversa hoje com o Felipão, que é cantor de forró, dono de banda e de uma marca pessoal forte e “em construção”.

Eu vou começar perguntando se você considera que Felipão é uma marca e, se sim, se essa marca foi planejada lá no início da tua carreira, ou não, se as coisas foram acontecendo..

Não foi planejada inicialmente, eu trabalhava com o nome Felipe, era só Felipe, eu era cantor de bandas de forró, de bandas de outras pessoas, não era dono, mas na época eu já tentava colocar o meu nome com algum destaque. Eu lembro que uma das primeiras bandas que eu toquei, que era a Zabumbada, eu mandei fazer umas camisas como o meu nome, escrito Felipe e Zabumbada, e isso causou uma ciumeira danada com o dono da banda porque ele achava que eu queria tirar o foco do nome Zabumbada e já puxar a história pra mim, mas a verdade é que eu queria exatamente já gerar e construir alguma coisa no nome Felipe, que não aparecesse só o nome Zabumbada e que eu ficasse sempre em segundo plano. Depois que as coisas começaram a acontecer, com a amizade com o locutor Rasga Baleia, ele foi e me disse que Felipe tem muitos por ai, que eu tinha que ser um nome mais forte, tipo Felipão. Como não tinha nenhum outro Felipão na música (só o da seleção) a gente absorveu a ideia e estávamos nesse momento no início do Forró Moral e aí lançamos Felipão e Forró Moral, sinalizando que era o Felipe que vinha do Zabumbada mas agora se lançava como Felipão e Forró Moral, que já era uma banda nossa. Mas sempre teve essa preocupação com o nome, eu sempre briguei internamente para a gente construir uma marca Felipão, que ela não dependesse só de faturamento de show.

Então o nome Felipão nasceu dessa visão, de uma sugestão. Do momento em que você adotou o nome Felipão como a tua marca, veio junto a preocupação de projetar o futuro, no sentido de definir o que se quer para essa marca, da gestão da própria marca e que passos você vai dar?

Esse ano eu faço dezenove anos de carreira. Eu poucas vezes consegui viver o momento que a gente tá vivendo hoje. Há 10 anos quando eu parei, o mercado não era tao profissional como é hoje, então quando eu falava de construir uma marca em cima de um Felipão, que eu via bonecos, que eu via roupas, que eu via brinquedos, eu via uma série de produtos que podiam ser comercializados com a marca Felipão, a gente tinha muita dificuldade de colocar isso em prática na época. Eu dizia que o forró era um meio amador que gerava muito dinheiro. Hoje não, hoje o forró se profissionalizou, o forró hoje faz parte da grande música popular brasileira, hoje as bandas e os escritórios se tornaram altamente profissionais, tudo regularizado e tudo funcionando como deve funcionar e a gente hoje já vê a curva do mercado onde cada artista começa a ser uma marca. Então assim, hoje a gente tá vivendo um momento muito feliz, digo eu o Felipe, falando assim como empreendedor, a gente conseguiu nas últimas semanas, nos últimos meses, formar um time muito redondo. Eu acredito que a gente tá no início da construção da marca Felipão.

Ou seja, o forró é um negócio, é um business que movimenta muito tanto financeiramente quanto em termos de pessoas e que parece que também demanda muita inteligência de mercado para essa gestão. É isso mesmo?

Isso mesmo. Perfeito, é um negócio. 100% isso.

E o público do Felipão, mudou, vai mudar num momento em que você pensa em construção da marca, ou não, o que é que pode, na prática, ter de diferença de entrega? Ou a mudança é para entregar para esse mesmo público alguma coisa diferente? 

O público mudou sim. Hoje nas nossas estatísticas ele é um público mais adulto, que vai de 25+, vamos falar assim, de 25 a 35,antes a gente tava na faixa do mercado do adolescente. Esses dez anos se passaram, Felipão saiu do mercado e agora ele volta. Quando ele voltou ele teve o abraço do público que curtiu mas que também amadureceu junto, é um público que tá curtindo outras coisas, que tem um movimento de renda diferente, é um público que tá casado, que não consome o quanto eu preciso que consuma hoje para o meu negócio, tanto para compra quanto para o show, para o entretenimento, então hoje a gente já trabalha na curva para que o meu maior público daqui a pouco tempo se torne o adolescente de novo. O Felipão volta ao mercado querendo se mostrar para o mercado atual, como as marcas modernas hoje que estão no mercado.

E que marcas você admira?

O Wesley é uma grande referência. Eu sinto uma alegria hoje de ver tanta gente vivendo o que a gente tentou tanto tempo lá atrás. Tem portas que nós batemos muito e que hoje, quando elas se abriram, muita gente entrou. A gente fez parte dessa construção. E ninguém melhor que o Wesley nesse ponto ai, ele tem conseguindo dar uma aula no forró, com a marca, com o profissionalismo. E eu batia muito nisso, na construção do forró, que é forró aqui mas que em qualquer lugar do mundo não deve ser vista como a música do cabeça chata, da empregada doméstica, isso já mudou mas a gente ainda precisa construir essa imagem da música e de um produto que vai para consumo do Brasil. E eu acho que ele foi e fez isso. Tem muitos outros nomes fora do forró, mas no forró o nome dele se tornou muito grande, ele tá fazendo com maestria e tá dando uma grande aula pra todo mundo. Não é que eu olhe pra ele e tente seguir, sou um grande admirador dos feitos dele como profissional, como visionário e como empreendedor, ele tem sido um grande exemplo, mas eu não olho para ele buscando uma referência pra mim, eu já fico procurando o que é que eu vou fazer dez anos pra frente, esse é o meu desafio.

E o Felipão tem uma assinatura, né? Foi pensada de forma proposital? Fala um pouquinho sobre ela.

Vagabundo (risos). Não foi pensada, foi uma determinada situação em um show que eu falei para um integrante da banda na época, que costumava chegar atrasado nos shows e eu achava inadmissível essa postura. Ai, quando ele entrou no palco com o show já acontecendo, eu me virei e falei isso pra ele, aí o público gostou e pegou. Agora me chamam assim, e eu trabalho tanto (risos).

E que associação de marca, que parcerias com outros nomes vocês desejam desenvolver?

Temos muito trabalho pela frente, estou de volta ao mercado há um ano e muita coisa já aconteceu mas ainda tem muita coisa para acontecer. E tudo precisa ser bem feito.

E tem ideias ou projetos de marcas que podem nascer a partir da sua?

Tem muita coisa planejada mas o sucesso pra mim hoje é novamente uma construção. Antes a gente ficava como se fosse jogando na mega sena para a qualquer momento o sucesso acontecer. E hoje com o mercado do jeito que ele está se movimentando, a gente entende que tem muitos passos a serem dados, esses passos eles dependem do tempo, dependem do dinheiro, do investimento, eu preciso capitalizar para poder investir. Pode acontecer de acertar uma música, mas eu não trabalho na sorte, eu vou pelo planejamento, pelo estratégico. E eu acho que o meu grande gancho, apesar de sempre procurar saber o que está acontecendo no mercado, é não me dirigir pelo mercado, eu tento virar o olhar e seguir muito o coração. Tudo que vai acontecendo é muito do meu sentimento, é muito do que vai se formando dentro de mim. Eu vou vendo as coisas acontecendo mas o meu planejamento vai tentando fugir de tudo que tá aí exatamente para poder ser novamente um produto diferente, ser uma pessoa que tá inovando, que tá trazendo coisas que ninguém trouxe. E isso é difícil hoje porque todo mundo tá criando num mercado que é criação 24 horas, do esdrúxulo ao inteligente. Tem todo tipo de novidade no mercado de entretenimento.

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