NO ANO

Real desvaloriza 22% e tem 3ª maior queda entre emergentes

Além do Brasil, outros países têm visto suas moedas recuarem com a política dos EUA e com questões internas

Considerando os últimos doze meses, o recuo da moeda brasileira alcançou 25%
01:00 · 01.09.2018 por Yohanna Pinheiro - Repórter

Além da forte pressão sobre o real nas últimas semanas, as moedas dos países emergentes também vêm perdendo força frente à política monetária norte-americana de aumento dos juros e às questões político-econômicas internas. No exemplo mais recente, o peso argentino atingiu o menor valor da sua história após o banco central do país elevar a taxa de juros para 60% ao ano, na última quinta-feira (30), no intuito de evitar o colapso da economia nacional.

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Considerando os países que compõem o Brics (Brasil, Rússia, Índia e China) e países emergentes como a África do Sul, Argentina, Turquia e México, o Brasil ocupa a terceira posição no ranking das moedas que mais de desvalorizaram neste ano, atrás da Argentina e da Turquia.

Enquanto o real acumula desvalorização no patamar de 22,8% desde janeiro e de aproximadamente 25% nos últimos doze meses frente à moeda americana, também influenciado pela disputa eleitoral, o peso argentino recuou 51,8% no ano e de 55,1% em doze meses.

Cotado a 0,026 centavos de dólar no dia 30, a moeda argentina passou a valer menos que o peso uruguaio, tradicionalmente mais frágil, pela primeira vez na história.

Ambos resultados do câmbio brasileiro e argentino foram também afetados pela situação da lira turca. Devido às preocupações com a influência do presidente da Turquia, Tayyip Erdogan, sobre a economia, suas repetidas solicitações por taxas de juros mais baixas e o agravamento dos laços com os Estados Unidos, que aumentou a alíquota de importação do aço turco, a moeda acumula perdas de 42,3% no ano e de 48,2% em 12 meses.

Para analistas, a Turquia é exemplo cabal de como os investidores estão retirando dinheiro dos mercados emergentes para direcioná-los aos EUA, onde podem obter retornos mais seguros com os juros elevados pelo Federal Reserve (FED). O entendimento é de que o crescente protecionismo do mercado americano está tornando o resto do mundo mais arriscado.

As reverberações da volatilidade da moeda turca também foram sentidas pelos países do Brics, com intensidade maior no real. O rand sul africano acumula queda de 15% no ano, enquanto a rúpia indiana caiu 12,5% e o rublo russo recuou 11,7% no mesmo período. Na China, ainda que o remimbi tenha permanecido no patamar de 0,15 centavos de dólar nos dias 1º de janeiro e 30 de agosto, ele acumula decréscimo de 6,25% desde 16 de janeiro.

Problemas estruturais

O economista Ricardo Eleutério, coordenador do curso de Economia da Universidade de Fortaleza (Unifor), relembra que sempre que os Estados Unidos elevam a sua taxa de juros, cria-se um movimento forte na economia mundial de desvalorização da moeda dos países em desenvolvimento. Mas, além dessa movimentação norte-americana, os emergentes têm ainda seus problemas crônicos estruturais que complicam a situação.

"A Argentina teve que elevar seus juros para 60% e vem enfrentando problemas domésticos e externos. Com isso, andou contaminando nosso mercado de câmbio. Temos uma tendência de aumento (do dólar) no Brasil, amplificado pelas nossas dificuldades domésticas, pelo cenário político. É possível que a cotação possa encostar nos R$ 4,20, R$ 4,50 até o dia das eleições, mas o nosso Banco Central tem ferramentas para reduzir essa volatilidade", explica.

Eleutério destaca que, conforme o boletim Focus do BC, o mercado prevê que o dólar encerre o ano no patamar de R$ 3,75. "Diminuídos esses incêndios na Argentina e na Turquia e passado o período eleitoral, a cotação do dólar deve fazer um repouso e voltar a um patamar inferior ao de hoje e ao que pode chegar a daqui a um mês. Enquanto estiver nessa situação, o mercado vai reagir, mas o Brasil tem um bom volume de reservas".

Opinião do especialista

Efeito dominó afeta mercados de vários países

Henrique Marinho - Economista

Como os mercados hoje estão muito integrados internacionalmente, quando houve a desvalorização da moeda turca, reflexos foram sentidos também nos câmbios do Brasil, da Argentina, do México. As moedas fluem desses países para outros mais estáveis, o que provoca essa desvalorização. É um efeito dominó que vai levando o mercado emergente porque, como o capital internacional está aí, à medida que os investidores vão entrando nesse jogo, a moeda vai se desvalorizando.

A Argentina está com um problema muito mais sério, econômico, de liquidez de balanço de pagamentos. É tanto que eles estão em uma negociação, recebendo recurso do FMI para tentar estabilizar sua economia. E claro, quando você tem uma desvalorização dessas, há uma fuga dos capitais para o mundo.

No caso do Brasil, há muito mais uma crise interna do que externa. Em toda essa movimentação de desvalorização cambial, o País praticamente não perdeu recursos das suas reservas internacionais. Temos hoje US$ 381 bilhões, então não há essa movimentação. Saíram alguns da Bolsa, sim, US$ 2 bilhões, isso não é nada para a economia brasileira. Não há um movimento especulativo contra o real. O grande problema hoje no País é a incerteza do quadro eleitoral.

Há uma guerra comercial imposta por Trump, que, se prolongada, poderia trazer uma consequência mais grave para a economia mundial. Mas, até agora, ele tem negociado com esses mercados para resolver.

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