DIZEM ANALISTAS

Previdência precisará de nova mudança em 5 anos

Segundo a Fazenda, se a reforma for aprovada como está, economia será equivalente a 76% do previsto inicialmente

Para o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, embora não seja impossível, a realização de novas mudanças na reforma fica mais difícil ( Foto: Bruno Gomes )
00:00 · 21.04.2017

São Paulo. Os técnicos do Ministério da Fazenda e os economistas do mercado financeiro têm contas diferentes sobre o impacto das mudanças feitas na proposta de reforma da Previdência. Mas o que preocupa os especialistas não são as pequenas variações contábeis, mas o cenário quando se leva em consideração outra proposta da atual gestão, que já está em vigor: o teto do gastos, que limita as despesas do orçamento de um ano com base na inflação do ano anterior. Pelas projeções do mercado, do jeito que a reforma ficou, em cinco anos o teto "estoura" - o que vai exigir novas medidas para cortar os gastos, elevar as receitas ou que se faça em poucos anos, mais uma rodada de reformas na Previdência.

Ontem (20), o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, anunciou que, se a reforma da Previdência for aprovada no modelo atual, a economia será equivalente a 76% do benefício fiscal previsto com a proposta original. "Ainda é um número impreciso. Estamos falando de uma proposta que ainda não foi aprovada. Esse número pode variar um pouco, mas já estava precificado pelo mercado e dentro das nossas expectativas", disse.

Em 10 anos, a redução prevista, que era próxima de R$ 800 bilhões, vai cair para R$ 600 bilhões. Os economistas que se debruçaram sobre as projeções, na média, veem uma perda um pouco maior, acima de 40%.

Ministério da Fazenda e mercado financeiro discutiram metodologias de cálculos dos efeitos da reforma da Previdência num encontro técnico, na capital paulista, no início da semana. Apresentaram as suas contas os bancos Itaú, Safra e BBM, as gestoras de recursos SPX, Claritas e Mauá Capital. Na plateia estavam economistas de outras instituições financeiras e consultorias empresariais.

Pelo cálculo do Banco Itaú Unibanco, por exemplo, a proposta inicial enviada ao Congresso pelo governo poderia gerar uma economia de R$ 760 bilhões até 2017. Com as mudanças, o corte de despesas tende a cair para cerca de R$ 430 bilhões. Para o economista Pedro Schneider, do Itaú Unibanco, a diferença porcentual entre os cálculos é o menor dos problemas. "O ruim seria não fazer nada; qualquer mudança é bem vinda, pois evita a explosão da conta previdenciária", diz.

Mas Schneider reforça que o governo vai precisar, o quanto antes adotar medidas adicionais para compensar o fato de a economia ser menor. "Nossas propostas são cortar, ao máximo, os subsídios agrícolas, mudar as regras do Minha Casa, Minha Vida, acabar com todas as desonerações sobre a folha e tirar o abono salarial - o que já deveria ter sido feito", afirma o economista do Itaú Unibanco.

Sem adoção de medidas adicionais, já se formou o consenso entre os economistas de que o problema será segurar o teto dos gastos. "Avaliando todas as projeções dos colegas, fica claro que em cinco ou, no máximo, seis anos, o teto dos gastos estoura", diz Evandro Buccini, da Rio Bravo Investimentos. O resumo da situação econômica nacional nas palavras de Buccini: "Com certeza, hoje estamos melhor do que a há um ano, e estamos no caminho certo, mas o problema fiscal continua muito grave".

O economista Paulo Tafner, professor da Universidade Cândido Mendes e especialista em Previdência, estimou que a perda pode ser ainda maior: entre 50% e 60%. Mas ele também considera o relatório final um avanço. "Todo mundo deu seus pitacos. Parece que é o que seria viável de aprovar.

Mas teremos uma reforma homeopática. Será como levar um infartado para o hospital de carroça, em vez de usar uma ambulância", afirma.

Novas concessões

O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, afirmou não ser impossível que ocorram novas concessões do governo para a aprovação da reforma da Previdência. "Mas fica mais difícil", segundo ele. "Será mais difícil modificações na proposta no plenário da Câmara", disse. "Momento de pedir mudanças à proposta da reforma da Previdência é antes do relatório, não depois".

Temer minimiza

O presidente Michel Temer minimizou ontem (20) as mudanças feitas no projeto de reforma da Previdência, que já desfiguraram em diversos pontos a proposta original. Para Temer, em nome da aprovação da reforma como um todo, "vale a pena reduzir o déficit".

Ao admitir que a economia pode ser ainda menor do que a antes prevista pelo governo, Temer declarou: "O que vale a pena: reduzir o déficit em seiscentos e tantos bilhões ou não fazer nada? Eu não vou fixar um número. Se não for R$ 600 bilhões, será R$ 580 bilhões". Para ele, o que importa é que haverá "uma grande redução do déficit".

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