Pacote de reajuste é mal recebido pelo mercado
Medida é vista como um "sinal contrário" à necessidade de redução dos gastos públicos pelo governo
A aprovação do reajuste dos salários de servidores de diversas categorias do judiciário, do executivo e do legislativo pela câmara dos deputados, na madrugada de ontem (2), foi mal recebida por especialistas. A avaliação é que a medida, que teve apoio do presidente interino michel temer, é um "sinal contrário" ao que era esperado do governo pelo mercado, que aguardava ações que reduzissem o endividamento público.
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Os aumentos devem impactar os cofres públicos em, pelo menos, r$ 58 bilhões até 2019. Todos os projetos - à exceção do reajuste dos servidores do senado, que segue para sanção presidencial - terão de passar pelo crivo dos senadores.
Na avaliação do economista alex araújo, o governo sinaliza de maneira contrária ao que o mercado esperava do ajuste fiscal. "a raiz do problema está no crescimento do déficit do endividamento público, e essa atitude vai colaborar para que ele aumente ainda mais. É uma sinalização preocupante por parte do governo", avaliou.
Ele aponta que o efeito cascata do aumento das remunerações exercerá um impacto sobre os cofres públicos ainda maior que o estipulado, por conta das despesas decorrentes que serão arcadas pelos estados. Com o reajuste dos ministros do supremo, também serão alteradas, por força de lei, as remunerações de juízes e desembargadores estaduais, além de outros funcionários do poder judiciário.
Ainda que a medida seja negativa para o cenário econômico, araújo argumentou que ela pode ser positiva no âmbito político, por responder a uma demanda dos sindicatos dos servidores públicos. Ele destacou que, desde o fim de 2015, 60% das categorias laborais não conseguiram a reposição da inflação nas negociações com o setor privado.
Corte de gastos
O economista ênio arêa leão questionou a postura do governo ao beneficiar pequena parcela da população em um momento de cobrança pelo corte de gastos públicos. "o que parece é uma negociação para conseguir aprovar as coisas mais importantes, mas é triste que a gente ainda precise beneficiar uma pequeníssima parte da sociedade para que se possa beneficiar a todos", ponderou.
Ele apontou que, caso o reajuste seja efetivado, a recuperação da economia será ainda mais longa. "cada real economizado contribui para acelerar sua recuperação. Quando o governo cria uma despesa nova, que ainda vai contingenciar recursos pelos próximos anos, esse processo fica cada vez mais difícil".
A medida também foi mal recebida pelo gerente-executivo de política econômica da confederação nacional da indústria (cni), flávio castelo branco. "o aumento do funcionalismo público não é um sinal positivo. O setor privado está dando sua cota de sacrifício. Como no setor público não tem ajuste pelo lado do emprego, tem que ser pelo lado do total do gasto com a folha salarial", criticou.
Contraponto
O economista henrique marinho, por sua vez, ponderou que houve uma ampla negociação com os servidores, ainda no governo passado, para um reajuste escalonado em quatro anos. "é um impacto grande, mas é diluído. O servidor terá uma reposição parcial, algo que já estava negociado e contabilizado. Isso não vai alterar a meta fiscal, porque já estava dentro dos cálculos de déficit", explicou.
Ele disse que houve uma negociação com a oposição para que a matéria fosse aprovada na câmara, de forma que o governo poderá contar com maior colaboração para aprovar outros projetos. "isso mostra que há uma oposição disposta a negociar e possibilitar a aprovação de projetos importantes para o ajuste, como a reforma da previdência".
Henrique Marinho: "É um impacto grande, mas diluído. O servidor terá uma reposição parcial" FOTO: KIKO SILVA Alex Araújo: "A raiz do problema está no aumento do déficit. Essa atitude vai colaborar para que ele aumente mais" Ênio Arêa Leão: "O que parece é uma negociação para conseguir aprovar as coisas mais importantes"