COM FAIXAS EXCLUSIVAS

Melhoria não garante retorno ao uso do sistema

Apesar do avanço na qualidade, questões como má distribuição da rede e segurança ainda travam o crescimento

Criação de faixas exclusivas ajudou a melhorar o serviço na Capital, mas não foi suficiente para recuperar o número de passageiros perdidos ( FOTO: FABIANE DE PAULA )
01:00 · 05.09.2018

A implantação de faixas exclusivas em Fortaleza contribuiu para resgatar a qualidade e o número de usuários de ônibus. Porém, segundo o diretor administrativo e institucional da Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU), Marcos Bicalho, a melhoria deste tipo de infraestrutura não é suficiente para recuperar o número de passageiros perdidos nos últimos anos. "A má distribuição da rede e os preços altos também contam para a perda de passageiros. Além disso, o transporte público sofre por tabela com um problema frequente das grandes cidades: a insegurança", lamenta.

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Conforme Bicalho, outro ponto a ser ajustado para fortalecer o uso do modal coletivo em grandes capitais como a cearense é a forma como os custos de prestação dos serviços são repassados ao consumidor final. "Hoje, a tarifa de ônibus tem que cobrir a totalidade dos custos. É uma prática brasileira que está na contramão da tendência mundial. O transporte público é um instrumento de desenvolvimento econômico e social, outros países consideram dividir os custos entre governo e sociedade. Isso é um grande limitador da qualidade", ressalta.

Conforme levantamento da NTU de 2017, as passagens poderiam ser reduzidas em até 20,9% se as gratuidades (para idosos e pessoas com deficiência, por exemplo) fossem custeadas por fontes específicas. Em Fortaleza, diz a associação, 13,7% dos usuários têm gratuidade.

Conforme o Sindiônibus, se a tendência de diminuição do número de passageiros pagantes se mantiver, "teremos o colapso do transporte coletivo". "Considerando que a tarifa corresponde ao custo dividido pelo passageiro equivalente, e que os custos tendem a subir; a queda da demanda implicaria em elevação do valor da tarifa", esclarece o órgão de transporte.

No cenário nacional, a tendência de redução de passageiros se repete: de acordo com o Anuário 2017-2018 da NTU, o transporte público por ônibus perdeu 25,9% dos passageiros entre 2014 e o ano passado, número que chega a 35,6% se consideradas as duas últimas décadas. Ainda conforme pesquisa da NTU, o transporte coletivo público é considerado o quarto principal problema urbano do País.

Qualidade

Para o professor do Departamento de Engenharia de Transportes da Universidade Federal do Ceará (UFC), Mário Azevedo, a principal razão para a redução é o desemprego. "Não creio que a razão seja mudança de um modal para outro. Qual é a saída para a grande parte da população que usa ônibus? Não é compra de automóvel, a economia não aponta para isso, e não dá para considerar que foi migração para bicicleta, por exemplo. É o trabalho que move o transporte. Sem ele, as pessoas não se locomovem", avalia.

O professor diz que "o usuário cativo de ônibus não conta com aplicativos de transporte, por exemplo, pois esses são para outras faixas de renda", ficando condicionado ao uso dos coletivos, apesar dos problemas estruturais. "O ônibus, muitas vezes, fica enroscado em congestionamentos. Se solucionarmos isso, é possível melhorar o serviço sem precisar aumentar frota. Isso tem mudado em Fortaleza, com as faixas exclusivas", diz.

O Sindiônibus inclui a "concorrência com outros modos de transporte, surgimento de serviço via aplicativos e mudanças de hábitos da população" entre as razões para a redução.

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