Aumento de 20%

Fruticultores do CE somam prejuízos e elevam preços

Produtores de melão e de mamão, por exemplo, indicam um aumento de 20% nos valores dos produtos como uma consequência do tabelamento do frete
01:00 · 09.06.2018

Com menos de duas semanas após o tabelamento do preço do frete, os produtores de melão e de mamão, estão tendo um aumento de 20% nos valores dos produtos. "Nós aproveitamos as carretas frigoríficas que sobem do Sul do País com cargas frias para enviarmos nossas mercadorias (frete de retorno). Sem o tabelamento, o frete de uma carga vinda do Sul custava em torno de R$ 17 mil, já o de volta custava entre R$ 6,5 mil e R$ 7 mil. No total, os dois fretes saíam por cerca de R$ 24 mil. Com o tabelamento, de R$ 7 mil, o preço do frete de retorno passou para R$ 11 mil", diz Luiz Roberto Barcelos, diretor da Agrícola Famosa.

Segundo Barcelos, não é possível repassar esse valor extra para o consumidor final. "Isto nos deixa menos competitivos no mercado Centro-Sul. A MP (Medida Provisória 832/2018) só está tabelando um elo da cadeia e o resto como é que fica?", questiona.

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Diante do encarecimento dos valores do frete, o mercado de transporte de cargas cearense vivencia um efeito contrário pós-greve dos caminhoneiros. "Nós temos caminhões parados nos postos daqui não por falta de demanda, mas por conta dos altos valores dos fretes, que inviabilizam a venda dos nossos produtos", explica o presidente do Conselho Temático das Cadeias Produtivas do Agronegócio da Federação das Indústrias do Estado do Ceará (Fiec), Bessa Júnior. Ele diz que há casos de 80% de acréscimo do frete, o que inviabilizaria o negócio.

Segundo o presidente da Câmara Setorial de Floricultura da Agência de Desenvolvimento do Ceará, Gilson Gondim, após o tabelamento o frete está saindo duas vezes mais caro, em alguns casos. "O principal centro de consumo dos nossos produtos está no Sudeste, principalmente em São Paulo, e o custo do frete representa um percentual importante no custo final dos nossos produtos, cerca de 30%. Com a oneração, os nossos produtos já chegam ao mercado sem competitividade", diz. "A interferência do governo nas relações comerciais, entre empresas privadas, só serve para dificultar e causar desequilíbrio no mercado".

Impactos

Mesmo com o impacto negativo nos custos, provocado pela tabela mínima para o frete no Brasil, o setor agropecuário no Estado voltou a escoar a produção em volumes semelhantes ao período anterior à greve dos caminhoneiros. Mas a expectativa é de que, em breve, o tabelamento do frete comece a inflacionar os preços ao consumidor.

"A oferta (de transportes) já está normalizada, já com a aplicação da tabela nova", diz Tom Prado, CEO da Itaueira Agropecuária, uma das maiores produtoras brasileiras de melões do País. "Como o mercado estava desabastecido, está todo mundo comemorando. Mas acreditamos que a médio prazo isso provocará um aumento da inflação, porque o frete vai ter que se repassado para o consumidor".

Segundo o presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Ceará (Faec), Flávio Saboya, o tabelamento do frete irá provocar prejuízos de mais de 50% ao setor produtivo, caso seja mantido. "Já fizemos uma análise detalhada e esse tabelamento será, indiscutivelmente, prejudicial ao setor", ele diz. Sobre uma possível ação judicial contra a medida, Saboya diz que o assunto está sendo tratado pela CNA. "Ainda não está claro se o governo seguirá com essa posição".

Com relação à possibilidade de um eventual desabastecimento devido ao custo com frete, o titular da Secretaria de Agricultura, Pesca e Aquicultura (Seapa), Euvaldo Bringel, considera improvável, no curto prazo. "É muito complicado, para a iniciativa privada, ter um frete tabelado por decreto. Isso não funciona. Há um descontentamento com essa questão do governo tabelar o que não é dele. Mas creio que isso será resolvido".

Ceasa

Com pouco mais de uma semana desde o fim da greve dos caminhoneiros e da implantação da tabela de frete, o abastecimento na Central de Abastecimento do Ceará (Ceasa) voltou a operar a 100% da capacidade apenas na quinta-feira (7). "Muitos produtos que tiveram grandes altas, por conta da escassez provocada pela greve, como a batata inglesa, já estão retomando aos preços normais", diz o analista de mercado da Ceasa, Odálio Girão. "Em muitos casos o frete já vem fechado entre o produtor e o comerciante, então a tabela ainda não tem pressionado tanto os preços", ele diz. A batata inglesa, que vem de Minas Gerais, Bahia e São Paulo, voltou a ser vendida por volta de R$ 3,80 o quilo, o que representa uma queda de 57,78%.

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