Entrevista com Marcos Troyjo

Brasil: 'temos a chance de um dia de sol perfeito'

O diretor do BricLab na Universidade de Columbia, o economista Marcos Troyjo, participou ontem de um Café Debate promovido pelo Lide Ceará. Ele conversou com os empresários sobre as megatendências globais e o impacto sobre os negócios do Brasil. Em entrevista ao Diário do Nordeste, falou ainda sobre o período de cautela do setor produtivo antes das eleições

01:00 · 14.04.2018
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Para o economista, cenário internacional deixa os especialistas mais otimistas sobre acordos entre o Mercosul e a União Europeia, o que deve aumentar as vantagens em áreas nas quais o Brasil possui maior expertise ( Foto: Natinho Rodrigues )

Quais os motivos para o otimismo empresarial ter se arrefecido?

Se a gente tivesse um ano atrás parecia que a gente estava avançando no âmbito das reformas estruturais, e o Brasil ia eleger um candidato em outubro deste ano mais para o mercado e para a livre iniciativa, mais favorável à diminuição do papel do Estado na economia, e quando isso acontece em paralelo a um cenário internacional muito positivo para o Brasil, tem muita liquidez no mundo, tem muita disposição para investimento em infraestrutura, tem o preço alto das commodities, você tem as conjunções que produzem aquilo que eu gosto de chamar de "um dia de sol perfeito". Três anos atrás, nós tínhamos uma tempestade perfeita e hoje nós temos a chance de um dia de sol perfeito. Só que o que tem acontecido? Novas denúncias de corrupção no âmbito do governo do presidente Michel Temer, esse vai e vem jurídico em torno da Operação Lava-Jato. Sem dúvida alguma, abalam essa nave. A própria conjuntura política interna acaba fazendo com que as pessoas adotem uma postura de "vamos esperar para ver". "Vamos apertar o botão de pause". Na minha opinião, em certo sentido, o ano de 2018 já acabou, para as coisas que realmente importam, que é essa inserção internacional do Brasil, que é o prosseguimento das reformas. É como se o Brasil tivesse congelado em uma cabine de criogenia e só saísse de lá em 2019.

> 60% dos empresários veem situação melhor

Por que existe essa ligação muito marcante de política e economia no Brasil?

Primeiro, porque se você entrar numa empresa americana ou holandesa e for na sala do Conselho, vai ter na parede os quadros e as fotos dos principais executivos, fundadores e presidentes. Se você fizer a mesma coisa no Brasil... Quem é o grande empresário brasileiro? É o Estado. O governo brasileiro representa 40% da economia. Quem é o grande formador de demanda de petróleo e gás no Brasil? É o Estado. Então, essa onipresença do Estado na economia cria essa conexão imediata com a situação política e econômica. Se nós fôssemos um país no qual a iniciativa respondesse por uma fatia maior da riqueza, a política ia se tornar menos importante. O governo ia desempenhar mais uma função de farol do que de barco. Mas por que isso é tão imbricado? Porque você depende muito da política para o setor elétrico, setor infraestrutural, setor de petróleo e gás e investimentos em estradas e ferrovias que são a base da economia. Solução para isso? Diminuir o tamanho do Estado. Fazer realmente as coisas que o Estado tem que fazer, como relações exteriores, saúde e educação básicas, enfim, deixar o país ficar rico, deixar o país se concentrar na geração de riqueza.

Qual a sua opinião em relação às privatizações?

Eu acho que privatizações e concessões não são perfeitas, e também não são panaceias. Elas são muito importantes para o momento, mas são importantes para a operação de caixa para melhorar a situação fiscal do Brasil, e também para aumentar o grau de eficiência geral da economia. Vamos liberar determinadas áreas da economia para a produção de eficiência. O exemplo que eu sempre gosto de dar é o da telefonia. Eu me mudei para Brasília em 1992, e a primeira coisa que eu tive que fazer foi alugar uma linha de telefone porque era um serviço estatal com baixíssima eficiência. Quando houve a privatização, o custo geral baixou e a eficiência melhorou e você acabou com uma casta de privilegiados que não faz sentido existir no Brasil. Então, eu acho que os mesmos efeitos multiplicadores benéficos podem ser observados em outras áreas, sobretudo, no setor elétrico.

Globalmente falando, o protecionismo é a bola da vez ou é só um período transitório?

Sempre teve muito protecionismo no mundo, mas curiosamente nós tivemos um longo período da história recente em que o comércio internacional cresceu mais que o PIB (Produto Interno Bruto) mundial, ou seja, o comércio internacional foi uma alavanca do PIB mundial. E aqueles países que passaram a depender crescentemente do comércio exterior tiveram mais sucesso do que aqueles mais fechados, como China, Chile, Espanha, Japão, Alemanha, Coreia do Sul, que aproveitaram essas oportunidades. O que é novo neste cenário é que tradicionais defensores desse comércio passaram a se tornar mais protecionistas, como Estados Unidos e Inglaterra. Na minha opinião, isso não vai perdurar muito pelo próprio fato de que o país que tem mais ganhado contorno com o protecionismo são os países que também mais têm empresas transnacionais. Isso quer dizer que se você de repente cria uma disrupção do desmantelamento das redes globais de produção, os principais prejudicados são aqueles países e empresas que estão mais globalizados. Não tem mais nada globalizado no mundo do que o próprio Estados Unidos. Eu acho uma tendência de curto prazo e seria um erro se o Brasil se fechasse ainda mais achando que o mundo está se fechando.

Como o Brasil pode atravessar essa fase?

São três coisas: a negociação, a promoção e a preparação interna. O Brasil precisa ter acordo com os mercados mais dinâmicos do mundo. Nós estamos mais otimistas do que pessimistas em relação à possibilidade de um acordo entre o Mercosul e a União Europeia. Isso vai aumentar muito o fluxo de investimentos de bens nos quais o Brasil tem vantagens comparativas no caso da carne bovina e no caso de bens agrícolas. Está sendo negociado um acordo entre o Mercosul e o Canadá e outro entre o Mercosul e o Japão. Com o grupo do Mercosul ou só, o Brasil precisa aumentar o seu acervo de acordos com o comércio internacional. Tem a parte da promoção que é o seguinte: o Brasil precisa se mostrar no mundo. As empresas brasileiras precisam ir lá pra fora, o Brasil precisa comprar empresas do exterior, precisa participar mais ativamente das feiras internacionais, precisa utilizar sua rede de embaixadas e consulados para facilitar a vida dos empresários e exportadores brasileiros. Essa parte de promoção é muito importante. E tem a parte também de preparação interna. Não adianta você fazer acordos com os outros e se promover lá fora se aqui dentro você tem que pagar uma carga tributária maior do que os seus competidores, se você demora mais tempo para ter propriedade intelectual. É a conjunção destes três fatores, essas três frentes avançando é o que fazem a competitividade internacional de um país.

Por onde o Brasil pode começar para se inserir mais internacionalmente?

O Brasil em um certo sentido já começou. O curioso é perceber que existem ilhas de excelência no Brasil. Você olha para a Ambev e é uma ilha de excelência, assim como a Embraer. No setor de alimentos, você tem também uma ilha de excelência. Mesmo no setor de tecnologia, você tem uma série de empresas de software que estão sempre oferecendo soluções. Esses exemplos precisam ser multiplicados. Eles vão ser multiplicados conforme vão melhorando o ambiente empresarial no Brasil. Se de repente você tivesse uma diminuição do papel do Estado na economia que se refletisse por exemplo numa queda de 5% da carga tributária, os empresários brasileiros podiam utilizar esses 5% para investimento em pesquisa, desenvolvimento em inovação e novas tecnologias que é na realidade o que importa. O marco zero é que a partir de 1º de janeiro de 2019, o Brasil aumente o papel da livre iniciativa na riqueza e diminua o papel do Estado.

Por que para o Ceará é importante manter a capacidade de investimento e a liquidez fiscal?

É muito importante porque é curioso, que o momento que o cenário internacional é muito favorável para o Brasil, nós adotamos algumas políticas de responsabilidade fiscal. Nós tivemos uma incontinência macroeconômica no Brasil muito grande e quando vieram os tempos de dificuldade, nós fomos pegos de calça curta. Se a governança de um Estado como o Ceará tem essa capacidade de se adaptar a diferentes situações de liquidez fiscal de uma maneira inteligente, que aparentemente é o caso, isso apenas gera mais confiança não apenas para os investidores locais, mas em gente que está prestando oportunidades para investimentos aqui. Por outro lado, ser apenas um bom administrador do que entra e sai não é suficiente. Tem que gerar mais atividade econômica de modo que boa macroeconomia do Estado é uma condição necessária, mas não é necessariamente o grande diferencial que vai fazer a multiplicação da renda per capita dessa unidade do Brasil.

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