Entrevista com Osmar de Sá Ponte - Professor de Ciências Sociais da UFC

A força do coletivo para mudar uma realidade

Coordenador do projeto de Incubadora de Cooperativas Populares, Osmar de Sá vê no modelo uma saída para o problema socioeconômico (Foto: Saulo Roberto)
01:00 · 25.08.2018 / atualizado às 12:10 · 27.08.2018

As cooperativas são modelos de negócio nos quais todos os cooperados são responsáveis pelo sucesso da empresa e também devem ter igual participação na resolução de problemas. A proposta é mostrar que um conjunto de pessoas que, individualmente, pode não ter tantas chances dentro do mercado, amplia significativamente suas chances de prosperar se pensarem e agiram coletivamente e cooperativamente.

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Entretanto, o propósito dessa alternativa tem ido muito além nos últimos 20 anos, quando nasceu a primeira Incubadora de Cooperativas Populares de Autogestão da Universidade Federal do Ceará (UFC). Ao longo desse período, além de cooperativas convencionais, o projeto foi responsável por participar ativamente da construção de duas cooperativas sociais que, mais do que fornecer recurso financeiro, devolvem aos integrantes a alegria de "sentir-se útil", de acordo com o professor de Ciências Sociais da UFC e coordenador do projeto, Osmar de Sá Ponte Junior.

Como surgiu a Incubadora de Cooperativas Populares?

O projeto da Incubadora surgiu primeiro na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com uma experiência do Betinho (Hebert de Souza), sociólogo e ativista pioneiro na abordagem da questão da fome no Brasil como política pública em parceria com a Fundação Manguinhos e com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), com a proposta de ser um projeto de combate à pobreza, porque naquele período o desemprego estava em um patamar muito elevado.

E como era essa cooperativa? Como funcionava?

Foi criada uma cooperativa de serviços para fazer a manutenção da Universidade. Ao lado do espaço da UFRJ, havia uma comunidade que era altamente excluída socialmente. Muitas pessoas que moravam lá, em idade para trabalhar, nunca nem tinham conseguido um emprego na vida.

Como o projeto de incubar cooperativas chegou ao Ceará?

A segunda incubadora de cooperativas nasceu no Ceará, em 1997. De lá para cá, já foram incubados cerca de 70 empreendimentos. Na época, a antiga Coelce havia sido privatizada e muitos trabalhadores ficaram desempregados e acabaram construindo cooperativas. Entre essas cooperativas, nós incubamos duas sociais que ainda estão em atividade: a Coopvida, com os soropositivos, e a Coopcaps (Cooperativa Social do Centro de Atenção Psicossocial). Nós, no Ceará, tivemos a primeira do País com egressos do Caps.

O que é uma cooperativa social? Quais são suas principais características?

As cooperativas sociais possuem uma lei própria e tem como foco as pessoas em situação de vulnerabilidade como por exemplo os egressos do sistema penal ou extrema pobreza. A Coopcaps e a Coopvida incluem esses indivíduos socialmente pelo trabalho, diminuindo a discriminação que essa população sofre.

Quais as principais diferenças entre uma cooperativa e uma empresa convencional?

Na cooperativa, o presidente ou diretor não é o dono do negócio. Ele é escolhido em uma assembleia geral para a missão de dirigir aquele empreendimento. Em uma outra eleição, ele pode, inclusive, não ser mais diretor, mas como a nossa cultura do trabalho é muito mais de subordinação e bem menos de autogestão, falta aquela noção de que a qualidade do que o cooperado faz favorece a ele mesmo e o conjunto, porque com um bom produto ou serviço a cooperativa tem maior retorno.

O número de cooperativas no Ceará e no País tende a crescer?

Se as micros e pequenas empresas percebessem a possibilidade de sucesso se organizando dessa forma, porque muitas acabam não vingando pela pouca competência instalada e baixo recurso. Se você vai criar uma cooperativa de arquitetos, por exemplo, você divide os custos e tem mais chances de crescer. Na empresa convencional, teria que contratar outro funcionário que não entraria com nenhum capital.

Como você avalia o cenário para o desenvolvimento do cooperativismo no Brasil?

Hoje, estamos em um contexto parecido com o da década de 1990, com alto nível de desemprego. Contudo, agora temos uma legislação que regulamenta as relações nas cooperativas de trabalho. O modelo de negócio passou a dispor de uma base de segurança jurídica.

Quais são as principais dificuldades enfrentadas hoje para manter o cooperativismo latente?

É de cultura. No geral, a sociedade é toda formada para o emprego e a cooperativa necessita de protagonismo, então tem que ser deixada de lado a ideia de que basta apenas produzir e que, se surgir um problema, o patrão vai se virar para resolver porque o décimo terceiro vai estar garantido de qualquer forma. É preciso ter engajamento dos cooperados. O sucesso coletivo da organização se dá na medida em que cada indivíduo fica consciente da sua condição. (IC)

Confira detalhes da entrevista com Osmar de Sá Ponte

 

 

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