Centro Paulistano

SP fará vistoria em 70 prédios invadidos após desabamento

Edifício de 24 andares, atingido por chamas, vira escombros e expõe os riscos dos imóveis ocupados por sem-teto

O edifício Wilton Paes de Almeida, no largo do Paissandu, foi engolido pelo fogo, após uma explosão no 5º andar, provocando pânico em moradores e vizinhos ( Fotos: AFP )
00:00 · 02.05.2018 / atualizado às 00:18

Brasília. A Defesa Civil de São Paulo fará nos próximos 45 dias um levantamento dos 70 prédios ocupados na região central da maior cidade do País para verificar a condição atual de cada um deles e avaliar o que fazer em cada caso, verificando eventuais riscos estruturais. O anúncio do plano de vistorias foi feito, ontem, pelo prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), após um incêndio na madrugada de ontem levar ao desabamento do Edifício Wilton Paes de Almeida, no Largo do Paiçandu, no centro da capital paulista.

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Pelo menos uma pessoa continuava desaparecida até 21h de ontem. Ao menos 146 famílias - 372 pessoas- viviam irregularmente no imóvel que desabou no Largo do Paiçandu, segundo a Assistência Social da Prefeitura. Os bombeiros informaram que o prédio havia sido vistoriado em 2015, quando foram relatadas as péssimas condições do local às autoridades do Município. O imóvel, uma antiga instalação da Polícia Federal, foi invadido diversas vezes por sem-teto brasileiros e imigrantes.

Relatos de moradores indicam que o fogo teve início no 5.º andar, por volta de 1h30, quando se ouviu um estrondo e o prédio teria sofrido um abalo. O alerta foi rápido e os ocupantes disseram ter conseguido escapar pelas escadas sem maiores riscos. Um homem identificado só como Ricardo teria ajudado sobreviventes e ficado pendurado para o resgate dos bombeiros pela laje de um prédio vizinho. Mas quando os bombeiros preparavam o içamento, houve o colapso do edifício, que ruiu.

Segundo o engenheiro civil Flávio Figueiredo, será necessário analisar o projeto estrutural do edifício para entender como aconteceu o colapso.

"Foi uma sorte muito grande ter caído daquele jeito. Dependendo de onde perdesse a sustentação, poderia ter sido pior: poderia ter enfraquecido de um único lado e ter tombado inclinado", explicou, ontem, o conselheiro do Instituto Brasileiro de Avaliações e Perícias de Engenharia de São Paulo.

Ele apontou que um dos possíveis motivos para o desabamento foi o fogo ter se alastrado pelos andares inferiores, em vez de ter um foco concentrado. A retirada dos elevadores - que criou dutos de ar no fosso- também pode ter ajudado a criar uma "chaminé". A perícia oficial será possível somente após o fim dos trabalhos de resgate.

Buscas

Até o início da noite de ontem, havia oficialmente apenas um desaparecido. Outras 34 pessoas previamente cadastradas pela Prefeitura não foram localizadas, mas não se sabia se elas estavam no local. As buscas atravessariam a madrugada, mas com cuidado, pois o processo de resfriamento da estrutura deve se estender por 48 horas.

A Prefeitura ofereceu auxilio aluguel às vítimas -o valor é de R$ 1,2 mil no primeiro mês e de R$ 400 nos próximos 11 meses.

O Edifício Wilton Paes de Almeida foi construído em 1961 e tombado em 1992. Abrigou a Polícia Federal em São Paulo e um posto do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), até ser repassado pela Caixa Econômica Federal à União. Um conflito sobre pagamento de taxas, no entanto, levou o caso à Justiça. Ou seja, ele é da União, mas está em nome da Caixa. Em julho de 2014, a União conseguiu fazer a reintegração de posse, mas o imóvel foi novamente invadido cerca de dois meses depois, quando já havia sido cedido à Prefeitura de São Paulo.

Em 2014, o Município chegou a desistir de um convênio formal, que acabou sendo retomado no ano passado. Neste momento, o prédio se encontrava em negociação para ser transferido oficialmente à Prefeitura. Seria reformado e transformado em repartições, recebendo órgãos que hoje funcionam em imóveis alugados. O município afirmou ter feito, em 2018, seis reuniões para negociar a desocupação da área de forma pacífica. Havia 17 anos que o edifício não era usado oficialmente.

Segurança

Um laudo enviado pela Prefeitura para o Ministério Público, em 2016, aferia que o local não tinha riscos estruturais, o que acabou sendo determinante para o Ministério Público arquivar uma investigação aberta em 2015 sobre a segurança do local.

O inquérito foi reaberto ontem. Indagado, o secretário da Segurança Urbana, José Roberto Rodrigues, afirmou que o fogo, por si, poderia alterar condições estruturais.

Ocupações

Covas (PSDB) afirmou que existam hoje ao menos 3,3 mil pessoas vivendo nas 70 ocupações que vão passar por um pente-fino. A força-tarefa incluirá as Secretarias de Habitação, Segurança Urbana, Assistência Social e Justiça. "Em alguns casos, o que temos é falta de documentação, o que não significa que há iminência de risco. A gente quer fazer esse levantamento para ver em quais temos de atuar no curtíssimo prazo para que eventualidades como essa (incêndios) não aconteçam".

Autoridades

Além de Covas, o governador Márcio França (PSB) e o presidente Michel Temer (MDB) visitaram a área do desabamento.

Temer precisou deixar às pressas o local do incêndio. Por volta das 10h, Temer desceu de um carro preto e, cercado por repórteres, disse que estava ali para prestar apoio às vítimas, mas passou a ser hostilizado pelos moradores que, revoltados, o xingaram de "golpista" e arremessaram objetos contra a comitiva.

"Não poderia deixar de comparecer aqui em São Paulo, sem embargo dessas manifestações, pois eu estava aqui e após essa tragédia para prestar apoio. A Defesa Civil e a ajuda do governo federal estão à disposição", disse Temer, ao sair no momento em que ouvia protestos.

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