Analisam especialistas

Reprovação recorde não trará ‘Congresso novo’

Fatores que vão além da revolta com a classe política podem ter peso maior nas urnas em 2018

00:00 · 07.12.2017

São Paulo/Rio/Brasília. O alto índice de reprovação de deputados e senadores, constatado por pesquisa Datafolha divulgada ontem, não significa garantia de renovação profunda do parlamento na próxima eleição. 

Fatores que vão além da revolta com a classe política podem ter peso maior nas urnas em 2018, na avaliação de especialistas. O novo modelo de financiamento das campanhas, aprovado neste ano, é um deles. 

Para o cientista político do Departamento de Gestão Pública da Fundação Getúlio Vargas, Eduardo Grin, a criação do fundo eleitoral com recursos públicos para 2018 irá favorecer os caciques partidários e quem já tem mandato.

“Os números da pesquisa poderiam nos levar a concluir que a renovação dos parlamentares em 2018 tende a ser a maior da nossa história. Mas uma análise mais cuidadosa aponta para o caminho oposto. É fácil supor que os mais poderosos nas legendas, em geral, aqueles que detêm cargo público, terão privilégio na repartição do fundo eleitoral”, projeta.

A pesquisa, realizada em 29 e 30 de novembro, constatou que o índice dos que consideram ruim ou péssimo o trabalho dos parlamentares é de 60%, o pior desde que a série começou. 

A maior reprovação, até então, havia sido registrada em 1993, com 56%. A aprovação neste ano caiu para 5%. 

Nos últimos 25 anos, período em que a avaliação foi feita, apenas no final do primeiro ano de governo Lula, o Datafolha constatou que a satisfação do eleitorado com o Congresso superava a avaliação negativa.

Abstenção

Outro fator que especialistas consideram como obstáculo para uma renovação mais vigorosa do Congresso é uma esperada alta taxa de abstenção de eleitores na próxima eleição, em razão da desilusão com a política. “Se 30% ou 40% dos eleitores não votarem, serão favorecidos os políticos que têm curral, com mandato e aparelhagem”, avalia o cientista político Carlos Melo, professor do Insper. 

O Brasil, contudo, é um dos países com maiores taxas de renovação do Congresso. Em 2014, o índice de renovação foi de 43,7% O problema é que essa renovação nem sempre tem se traduzido em melhora da qualidade do parlamento.

Desilusão de Tiririca

No mesmo dia em que foi publicada pesquisa apontando reprovação recorde do Congresso, o deputado Tiririca (PR-SP) subiu à tribuna da Câmara para anunciar que faria seu primeiro e último discurso. 

Reeleito com mais de um milhão de votos em 2014,Tiririca disse que vai deixar a política, e que o que acontece no Congresso é “vergonhoso”.

“Subo pela primeira vez e a última (à tribuna). Estou saindo triste para caramba, estou muito chateado mesmo com o Parlamento”, afirmou Tiririca, acrescentando: “Não fiz muita coisa, mas pelo menos fiz o que fui pago para fazer. O que vi nestes sete anos, saio com vergonha. Mas gostaria que vocês olhassem mais para o povo”.

O deputado disse que os parlamentares têm “mordomia” e ganham bem. “Nem todos os 513 trabalham. É vergonhoso: ando de cabeça erguida porque tenho coragem, mas muitos de vocês andam disfarçados. Já vi deputados envergonhados. A gente é bem pago, R$ 23 mil limpos, tem apartamento, mordomia. Não fiz nada, mas o pouco que eu fiz, fiz de cabeça erguida. É vergonhoso”, disse ele. 

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