Delação discutida

Palocci acena para mais um ano de trabalho à Lava-Jato

Ex-ministro de Lula e Dilma afirmou ao juiz Sergio Moro que está disposto a declinar nomes para a Operação

Figura de destaque nos governos petistas, ele surpreendeu ao elogiar os trabalhos contra a corrupção e ao se mostrar disposto a revelar detalhes sobre os episódios relatados nas denúncias ( Foto: Reprodução )
00:00 · 21.04.2017

Curitiba. Ex-ministro dos governos Dilma Rousseff e Luiz Inácio Lula da Silva, Antônio Palocci admitiu, ontem, em depoimento ao juiz Sergio Moro, que existiu Caixa 2 em todas as campanhas eleitorais, mas negou ter solicitado recursos ilícitos à Odebrecht ou favorecido o grupo.

"Todo mundo sabe que teve Caixa 2 em todas as campanhas. Não vou mentir sobre as coisas", disse Palocci.

Na última semana, ele se reuniu com a força-tarefa da Lava-Jato para tratar de delação.

Ontem, o ex-ministro afirmou a Moro que está à disposição para apresentar "nomes, endereços e operações realizadas" de "interesse da Lava-Jato".

A promessa, dada ao final de duas horas de depoimento, pode indicar uma pré-disposição de Palocci de fechar acordo de delação premiada com o Ministério Público Federal (MPF).

Segundo ele, as informações resultarão em um ano de trabalho extra à investigação.

"Acredito que posso dar um caminho, que talvez vá dar um ano de trabalho, mas é um trabalho que faz bem ao Brasil", acenou o ex-ministro.

Ele foi interrogado em ação penal sobre lavagem de dinheiro e corrupção ativa e passiva relacionados à obtenção, pela empreiteira Odebrecht, de contratos de afretamento de sondas com a Petrobras

"Eu nunca pedi ou operei Caixa 2. Mas ouvi dizer que isso existiu em todas as campanhas, isso é um fato", afirmou Palocci, que está preso, em Curitiba, desde setembro de 2016.

No depoimento, Palocci contou que foi procurado em períodos eleitorais por tesoureiros do partido, que lhe pediam para conversar com empresários colaboradores das campanhas a fim de conseguir mais doações.

"Evidentemente, eu pedia recursos das empresas acreditando que elas iriam tratar isso da melhor maneira possível", disse.

"Italiano"

Apesar de ter feito os pedidos, o ex-ministro garantiu a Moro que nunca chegou a operar ou a acompanhar o andamento das contribuições de campanha. "Eu não era tesoureiro, não fazia parte da arrecadação, não acompanhava esse tema", justificou.

Acusado pelo Ministério Público Federal de ter recebido propina para articular contratos entre a Petrobras e a Odebrecht, Palocci também disse desconhecer a quem se refere o apelido "Italiano", que aparece nas planilhas de doações.

Para o Ministério Público Federal, o apelido "Italiano" refere-se a Palocci.

Elogios a Moro

Durante o depoimento, ele surpreendeu o magistrado ao derramar elogios à maior operação contra a corrupção já desfechada no País e que levou para a prisão ele próprio e outros quadros expressivos do PT. O ex-ministro disse que a Operação Lava-Jato "realiza uma investigação de importância".

"Sei que o senhor é um juiz extremamente rígido, mas o senhor é um juiz justo. O senhor tem dado uma contribuição ao País, na medida em que acelera processos, decide com celeridade, e acho que isso é digno de nota. Agora, acho muito importante que a decisão (sobre o processo) seja em cima de fatos justos", disse o ex-ministro.

No depoimento, ele confirmou que teve reuniões com Marcelo Odebrecht, mas afirma que nunca aceitou propina ou interferiu em assuntos do BNDES, Congresso e Petrobras para ajudar a empreiteira.

"Eles (Odebrecht) jamais me pediram contrapartida e jamais eu dei margem a que eles pensassem que era possível uma contrapartida vinculada a recurso de campanha", assegurou.

Segundo a denúncia do MPF, entre 2006 e 2015, Palocci estabeleceu com altos executivos da Odebrecht "um amplo e permanente esquema de corrupção" destinado a assegurar o atendimento aos interesses do grupo empresarial na alta cúpula do governo federal.

Palocci disse que tinha contato com Emílio Odebrecht e com os dois últimos ex-diretores-presidentes, Pedro Novis e Marcelo Odebrecht -o herdeiro do grupo preso desde junho de 2015 pela Operação Lava-Jato.

Palocci destacou que o perfil da Odebrecht mudou com a presidência de Marcelo, que assumiu o grupo em 2008.

"Marcelo era um guerrilheiro das causas da empresa. Não estou fazendo um julgamento pessoal, é um ótimo pai de família, uma ótima pessoa, estou dizendo de estilos", avaliou.

O ex-ministro afirmou que seu principal interlocutor era Emílio Odebrecht e não Marcelo, como afirmaram os dois delatores da Odebrecht, no acordo com a Lava-Jato.

Seu contato maior com Marcelo Odebrecht, segundo Palocci, teria sido no episódio da Medida Provisória (MP) 460.

"Eu era totalmente contra ela e minha posição ali era muito decisiva para o processo".

O empresário queria que o então ministro da Fazenda tivesse posição favorável ao projeto.

Petrobras

Também em depoimento a Moro, o ex-assessor de Palocci, Branislav Kontik, o Brani, revelou, ontem, que o ex-ministro chegou a receber Marcelo Odebrecht na Câmara dos Deputados.

Palocci exerceu mandato de deputado federal pelo PT entre 1999 e 2011.

Brani foi braço direito de Palocci na Câmara e depois na Casa Civil e, mais tarde, na empresa de consultoria Projeto - por meio da qual o ex-ministro fechou contratos milionários com empresas e bancos.

No depoimento, Brani disse ainda que Palocci se encontrou também com Alexandrino Alencar, outro executivo do grupo ligado ao ex-presidente Lula.

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