Operação Câmbio, Desligo

Potencial é explosivo, diz procurador sobre prisão de doleiros; entenda o esquema de US$ 1,6 bilhão

A Polícia Federal prendeu 53 doleiros, operadores e fornecedores de dinheiro vivo nas ações desta quinta-feira (3)

13:02 · 03.05.2018 / atualizado às 13:39
Potencial é explosivo, diz procurador sobre prisão de doleiros
Na avaliação do procurador Eduardo El Hage, "essa é a maior operação desde o Banestado" ( Foto: Tomaz Silva / Agência Brasil )

A prisão de 53 doleiros, operadores e fornecedores de dinheiro vivo, determinada pela Justiça Federal na Operação Câmbio, Desligo, tem potencial explosivo na avaliação do procurador Eduardo El Hage, coordenador da Lava-Jato no Rio.

A operação visou boa parte dos doleiros que transacionaram com os doleiros Vinicius Claret e Cláudio Barbosa, apontados como os "doleiros dos doleiros" que firmaram delação premiada. Embora não se saiba os clientes dos alvos da operação, é mencionado serviço a político do MDB, à empresa JBS e à "comunidade judaica".

"Essa é a maior operação desde o Banestado. Se pensarmos que a Lava-Jato começou com um doleiro, podemos imaginar o potencial dessa operação. O potencial é explosivo", disse El Hage.

O procurador se refere à prisão do doleiro Alberto Yousseff, que havia sido preso em 2003 na Operação do Banestado e foi personagem central para a ampliação da Lava-Jato em Curitiba.

Entre os presos estão operadores que atuavam no Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília e Minas Gerais.

Assim como Yousseff, a operação desta quinta tem como alvo doleiros que firmaram delação premiada após serem presos. Entre os nomes estão Claudine Spiero e Patrícia Matalon.

"As investigações de agora podem ensejar o rompimento desses acordos", disse El Hage.

O procurador Sérgio Pinel defendeu as delações premiadas, apesar da reincidência dos colaboradores do passado. "Nada do que foi apurado seria possível sem a colaboração premiada [de Claret e Barbosa]".

A dupla de doleiros foi solta nesta quinta, em cumprimento ao acordo assinado com o Ministério Público Federal. Eles foram presos em março do ano passado no Uruguai e extraditados no início do ano.

Já foram presas 33 pessoas no Brasil e no Uruguai. O principal alvo, Dario Messer, está foragido. Ele é filho do doleiro Mardko Messer, espécie de mentor de Claret e Barbosa na década de 1980, responsável por dar lastro financeiro às operações da dupla, recebendo o maior quinhão do lucro do grupo.

Entenda como funcionava o esquema

Claret e Barbosa detalharam em delação premiada como funcionava um sistema que reunia doleiros de todo o país que movimentou cerca de US$ 1,6 bilhão (o equivalente a cerca de R$ 5,292 bilhões) envolvendo mais de 3.000 offshores em 52 países.

Conhecido como Juca Bala, Claret já foi citado por executivos da Odebrecht, o corretor Lúcio Funaro e os doleiros Renato e Marcelo Chebar, que atuavam para o ex-governador Sérgio Cabral (MDB).

​Claret operava tanto contas no exterior como era capaz de fornecer dinheiro vivo para corruptores interessados em pagar as quantias a agentes públicos. Concentrava, assim, as duas pontas da operação dólar-cabo, usada para despistar as autoridades financeiras do país.

Embora atuassem no Brasil, os dois operavam o complexo sistema de dólar-cabo desde o Uruguai. Grande parte dos recursos em espécie eram movimentados pela transportadora de valores Transexpert, já mencionada na delação do operador Álvaro Novis.

Claret e Barbosa foram presos em março do ano passado no Uruguai em decorrência da Operação Eficiência, feita com base na delação dos irmãos Chebar e que prendeu o empresário Eike Batista. Claret foi citado como tendo auxiliado na evasão de US$ 85,4 milhões de Cabral (equivalente a mais de R$ 282,4 milhões) ​- o que agora revela-se ser apenas uma fração de toda operação da dupla.

Assim como a Odebrecht, o sistema "bankdrop" dos doleiros identificava os responsáveis pelas transações por apelidos. Os irmãos Chebar, por exemplo, receberam o nome de "Curió".

Os Chebar procuraram a ajuda de Juca Bala após o volume de propina do ex-governador aumentar consideravelmente após ele assumir o estado. Em razão de sua prisão ter ocorrido numa operação da Lava-Jato do Rio, ele acabou identificado como "doleiro do Cabral", embora os dois tenham se conhecido de fato apenas na cadeia pública José Frederico Marques, em Benfica, para onde foi levado em janeiro após ser extraditado do Uruguai.

Doleiros dos doleiros

Claret e Barbosa são descritos como "doleiros dos doleiros" pelo Ministério Público Federal. Os dois operavam o dólar-cabo desde a década de 1980, em agências de turismo da família Messer no Rio de Janeiro.

Em 2003, os dois decidem se mudar para o Uruguai a fim de fugir do monitoramento de autoridades financeiras do Brasil. No ano seguinte, eles "herdam" as operações da família Matalon, doleiros que atuavam em São Paulo.

Ao acumular as duas maiores praças do mercado de câmbio, passam a ser considerados os "doleiros dos doleiros". Isso porque quase nenhum operador do mercado tem a capacidade de operar as duas pontas do dólar-cabo sem o auxílio de outros doleiros.

Embora fossem os grandes operadores, Claret e Barbosa recebiam uma pequena participação do lucro dos negócios. A maior cota era destinada a Dario Messer, que dava respaldo às operações com seu nome e captava clientes.

Messer foi dono do banco EVG, de Antigua e Barbuda, onde mantinham contas doleiros e empresários. Entre os nomes listados pela Procuradoria estão Alexandre Accioly e Arthur Cesar de Menezes Soares Filho, o "Rei Arthur", acusado de pagar propina a Cabral.​

Ele deixou a sociedade no banco em 2012, após desentendimento com Enrico Machado, outro dono do banco que também firmou delação premiada.

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