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'Ótimo', diz Temer a Joesley ao ouvir sobre interferência em investigação

Empresário afirmou ter dois juízes e um procurador da República atuando em favor da JBS

09:05 · 19.05.2017 por Folhapress
Temer
O objetivo é tentar passar a mensagem pública de que o presidente ainda conta com respaldo da sociedade ( Foto: Marcos Corrêa/PR )

A conversa mantida entre o empresário Joesley Batista e o presidente Michel Temer no Palácio do Jaburu revela que o peemedebista tomou conhecimento de um plano para destituir um procurador da República que investigava a JBS, mas não reagiu de forma contrária à estratégia.

Também não há informação de que Temer tenha procurado a PGR (Procuradoria-Geral da República) ou outra autoridade de investigação para informar sobre o plano.

Batista disse que estava "tentando trocar o procurador" que estava "atrás" dele. A reportagem apurou que se trata de Anselmo Henrique, da Operação Greenfield. Deflagrada em novembro, a operação investiga desvios em fundos de pensão de servidores públicos federais.

O executivo disse a Temer que estava "dando conta" de dois juízes, os quais não identificou nominalmente, e que conseguiu colocar um procurador "dentro da força-tarefa" da Greenfield.

O suposto informante é uma referência ao procurador Angelo Villela, preso nesta quinta (18) na Operação Patmos, e que entrou nos quadros da Greenfield em 22 de março. Para a PGR, Villela foi "infiltrado" na operação.

"Aqui eu dei conta de um lado, o juiz, dar uma segurada, do outro lado, o juiz substituto, que é um cara que fica.... [inaudível] Tô segurando os dois", diz Joesley.

"Ótimo, ótimo", respondeu o presidente.

"Consegui um procurador dentro da força-tarefa, que tá me dando informação. E lá que eu tô para dar conta de trocar o procurador que tá atrás de mim. Ô, se eu der conta, tem o lado bom e o lado ruim. O lado bom é que dá uma esfriada até o outro chegar e tal. O lado ruim é que se vem um cara com raiva, com não sei o quê...", diz Joesley.

Neste momento, Temer não se manifesta contra o plano e a conversa muda.

Em outro trecho, Batista faz referência a um pagamento de R$ 50 mil mensais para um "rapaz", que lhe trazia "informação". Os investigadores interpretam como uma menção ao procurador Villela.

Outro lado

Em nota, o presidente Michel Temer afirmou não ter acreditado na veracidade das declarações feitas por Joesley Batista no encontro gravado pelo empresário.

O peemedebista disse que, por na época ser investigado em inquérito, o executivo parecia contar vantagem e, por isso, não podia acreditar que ele teria cooptado um juiz e um procurador.

Meirelles

Batista também falou sobre a "ótima" relação que tem com Henrique Meirelles, ministro da Fazenda, mas faz algumas reclamações. Eles trabalharam juntos porque Meirelles foi presidente da J&F, a holding do grupo JBS.

"Não sei o quanto vou mais firme nele, o quanto deixo ele com essa pepineira", diz Batista sobre Meirelles. O empresário diz que já conversou com Meirelles sobre o secretário da Receita Federal, Jorge Rachid, a presidente do BNDES, Maria Silvia Bastos, e o presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn.

"Precisa mexer na Receita Federal, pô, o Rachid está aí há tanto tempo. [Meirelles teria respondido] 'Ih não posso, [e também] BNDES é do [Ministério do] Planejamento, não'", registra o áudio.

Batista disse a Temer que já reclamou a Meirelles sobre o presidente do Cade. "Eu não vou falar nada descabido, mas olha, esse presidente do Cade... precisa ter presidente do Cade 'ponta firme'", afirma Batista.

"Eu queria ter alguma sintonia contigo para quando eu falar com ele, ele não jogar"¦ 'ah não, o presidente"¦'", disse Batista. "Não deixa", completou Temer. "Mas se eu falar com ele e ele empurrar a você, quero poder dizer 'olha'"¦", disse Batista. "Pode falar", concordou o presidente."Quando digo de ir mais firme no Henrique é isso", afirmou o delator.

BATISTA: Queria primeiro dizer: estamos juntos aí. O que o senhor precisar de mim, me fala... Queria te ouvir um pouco, presidente. Como tá essa situação toda com o Eduardo [Cunha], não sei o quê, Lava Jato...

TEMER: O Eduardo resolveu me fustigar. Você viu quê...

BATISTA: Não sei, como que tá essa situação?

TEMER: Eu não tenho nada a ver com a defesa. O Moro indeferiu 21 perguntas dele que não têm nada a ver com a defesa dele. Eu não fiz nada [inaudível]

BATISTA: Queria falar assim: dentro do possível, eu fiz o máximo que deu ali, zerei tudo, o que tinha de alguma pendência daqui pra ali zerou, tal. Ele [Cunha] foi firme em cima, ele já tava lá, veio, cobrou... Pronto, eu acelerei o passo e tirei da frente. O outro menino, o companheiro dele que tá aqui, né... O Geddel sempre tava...

TEMER: [inaudível]

BATISTA: Esse... Geddel que andava sempre ali. Mas Geddel também, com esse negócio eu perdi o contato. Ele virou investigado, agora eu não posso encontrar ele...

TEMER: É, vai com cuidado. [inaudível] Obstrução de Justiça [inaudível]

BATISTA: O negócio dos vazamentos, o telefone lá do Eduardo com o Geddel, volta e meia citava alguma coisa meio tangenciando a nós, a não sei o quê. Eu tô lá me defendendo. O que que eu mais ou menos dei conta de fazer até agora: eu tô de bem com o Eduardo, ok.

TEMER: Tem que manter isso, viu? [inaudível]

BATISTA: Todo mês...

TEMER: [inaudível]

BATISTA: Também. Eu tô segurando as pontas, tô indo. Meus processos, eu tô meio enrolado aqui, né [Brasília]. No processo [inaudível]

BATISTA: Isso, é, investigado. Não tenho ainda a denúncia. Aqui eu dei conta, de um lado, do juiz, dar uma segurada, do outro lado, do juiz substituto, que é um cara que fica.... [inaudível]

TEMER: Tá segurando os dois...

BATISTA: Tô segurando os dois.

TEMER: Ótimo, ótimo.

BATISTA: Consegui um procurador dentro da força tarefa, que tá, também tá me dando informação. E lá que eu tô para dar conta de trocar o procurador que tá atrás de mim. Se eu der conta, tem o lado bom e o lado ruim. O lado bom é que dá uma esfriada até o outro chegar e tal. O lado ruim é que se vem um cara com raiva ou com não sei o quê... O que tá me ajudando tá bom, beleza. Agora, o principal... O que tá me investigando. Eu consegui colar um [procurador] no grupo. Agora eu tô tentando trocar.

TEMER: O que tá... [inaudível]

BATISTA: Isso! Tamo nessa aí. Então tá meio assim, ele saiu de férias, até essa semana eu fiquei preocupado porque até saiu um burburinho de que iam trocar ele, não sei o quê, fico com medo. Eu tô só contando essa história para dizer que estou me defendendo aí, to me segurando. Os dois lá estão mantendo, tudo bem.

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