Cearense que comandou o Brasil

Morte de Castello Branco em acidente aéreo faz 50 anos

Primeiro presidente do regime militar governou entre 1964 e 1967, em um período de grave crise econômica

00:00 · 15.07.2017
Humberto Castello Branco
Antes da chegada dos militares ao poder, Humberto Castello Branco teve como maior destaque em sua carreira a participação na 2ª Guerra Mundial
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Avião em que o ex-presidente sofreu o desastre fatal está exposto em um espaço no 23º Batalhão de Caçadores, na av. 13 de Maio, no bairro Benfica, em Fortaleza

Na próxima terça (18), completam-se 50 anos da morte de Humberto de Alencar Castello Branco, primeiro presidente do regime militar (1964-1985).

O cearense voltava de uma viagem a Quixadá, onde visitou a amiga, a imortal escritora Rachel de Queiroz (1910-2003), primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras, autora do romance "O Quinze".

A bordo de um avião bimotor, ele pediu ao piloto para sobrevoar a lagoa de sua infância, onde costumava brincar, a lagoa de Messejana. A alteração da rota prevista, a fim de atender ao desejo nostálgico do então ex-presidente, terminou em um acidente aéreo, como narra a biografia escrita pelo jornalista e escritor cearense Lira Neto, em 2004.

A aeronave foi atingida por um caça da FAB em voo teste e caiu em um terreno entre os bairros do Mondubim e Messejana.

"Castello ainda é muito reverenciado por sua dedicação integral às Forças Armadas, caráter forte e talento intelectual. Saiu do Ceará e teve uma trajetória brilhante", diz o general da reserva Júlio Lima Verde, hoje assessor para assuntos históricos e culturais do Exército.

O reconhecimento militar a Castello está em denominações oficiais de quartéis, além de nomes de instituições de ensino e vias de tráfego importantes. Por exemplo, o 23º Batalhão de Caçadores (BC), na avenida 13 de Maio, também é chamado de Batalhão Marechal Castello Branco, onde há um espaço em sua homenagem, com exibição de objetos históricos, com destaque para o avião do fatídico acidente. No quarteirão do Palácio da Abolição, na avenida Barão de Studart, fica seu mausoléu.

"Ele ganhou respeito na Segunda Guerra Mundial, passou 300 dias na Itália chefiando a seção de operações da 1ª divisão de infantaria da Força Expedicionária Brasileira (FEB), montando os planos de operações", destaca o general Lima Verde. Filho de pai militar, ele deixou o Ceará e foi estudar na Escola Militar de Porto Alegre (RS), onde se tornou alvo de trotes dos alunos. As descrições pejorativas eram frequentes também ao longo da carreira, segundo seu biógrafo.

"Ele se irritava demais com os apelidos que teve de colecionar ao longo de sua vida", citou Lira.

Rivalidade com Lacerda

Um dos seus maiores desafetos era o jornalista Carlos Lacerda, líder da UDN (partido de orientação conservadora), que publicava até ofensas pessoais.

Apesar disso, o biógrafo de Castello Branco relata que "nos anos de governo de Castello, em nenhum momento a imprensa foi censurada", relatou o biógrafo. Na presidência (1964-1967), ele enfrentou uma grave crise econômica, com inflação elevada. Também criou a Zona Franca de Manaus, que impulsionou o desenvolvimento da região.

Castello Branco também teve um papel na educação militar, comandando a escola de formação de oficiais.

"Ele construiu os alicerces, organizou a casa. Ele criou o Banco Central, a Polícia Federal, a Embratur, o FGTS e tantas outras coisas", lembrou o general.

Guerra fria

Sua biografia cita que Castello tinha a "ilusão de entregar o governo aos civis" após normalizar o cenário político, mas a situação saiu de seu controle, e o regime militar endureceu em seguida com medidas autoritárias.

O historiador Airton de Farias mencionou o contexto histórico enfrentada pela gestão de Castello na presidência. "O Castello vai ter um papel importante, mais legalista, no começo dos anos 1960, quando o jogo político no Brasil está cada vez mais radicalizado entre o governo de João Goulart, entre as esquerdas e grupos conservadores", disse Airton, citando o contexto da Guerra Fria, o embate entre capitalistas e comunistas. "Os militares conservadores viam João Goulart como um governo comunista e defendiam um regime de força", descreveu o historiador.

Castello também estudou nos EUA e na França no curso superior de guerra e tinha a reputação de ter lutado na Segunda Guerra Mundial. "O Exército brasileiro tinha forte ligação com os EUA. Não só com os EUA, mas também com a França, onde os militares brasileiros aprenderam técnicas de tortura usadas na guerra na Argélia", ressaltou.

"Você pega a história dos militares no Brasil e percebe que, desde o final do século XIX, após a Guerra do Paraguai, há duas posturas, duas visões: o militar profissional, que vai cumprir as ordens, independente de quem governa, e o chamado militar cidadão, mais ativo em termos políticos. Castello fez parte da geração de militares com atuação política, algo que marca toda sua trajetória", disse Airton.

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