Operação "Câmbio, Desligo"

Lava-Jato faz maior ação contra doleiros

Maior investida dos últimos 15 anos contra a prática de lavagem de dinheiro no País mira 45 operadores financeiros

Em entrevista à imprensa sobre a operação "Câmbio, desligo", na Procuradoria da República no Rio de Janeiro, Dario Messer foi descrito como "doleiro dos doleiros", responsável por um sistema internacional de pagamentos de propina ( Foto: Ag. Brasil )
00:00 · 04.05.2018

Rio de Janeiro. Na maior investida dos últimos 15 anos contra a prática de lavagem de dinheiro no País, a Operação "Câmbio, desligo" deflagrada ontem teve como alvos 45 doleiros e operadores financeiros, todos com ordens de prisão decretadas juiz Marcelo Bretas, da 7ª Vara Federal Criminal do Rio. Realizada pela Polícia Federal, Ministério Público Federal e Receita, a ação teve como objetivo desarticular uma rede de doleiros responsável por 3 mil offshores em 52 países, que movimentaram mais de US$ 1,6 bilhão entre 2008 e 2017.

A nova fase da Lava Jato do Rio mira, entre outros, Dario Messer, filho do primeiro doleiro a atuar no Brasil, Mordko Messer. O operador seria, segundo os investigadores, o nome por trás de uma suposta organização criminosa responsável por uma complexa estrutura de lavagem de dinheiro transnacional.

Ao avançar sobre Messer, conhecido como "doleiro dos doleiros", a Lava-Jato no Rio pode expandir sua abrangência e superar em tamanho sua homônima de Curitiba, segundo os investigadores. Na lista de nomes com prisão autorizada estão investigados e presos em grandes operações como a Satiagraha, Castelo de Areia, Banestado e até um deles no caso Siemens. Segundo os investigadores, esses alvos montaram "uma trama complexa para a realização de operações de dólar-cabo, de troca de reais 'sujos' no Brasil por dólares 'limpos' creditados no exterior", unindo duas pontas da transação de compra e venda.

Sérgio Cabral

A investigação do esquema em que o ex-governador do Rio Sergio Cabral está envolvido é um dos pontos iniciais da apuração do caso. Segundo o procurador da República Rodrigo Timóteo, há "centenas ou milhares" de contas no exterior cujos destinatários ainda têm de ser identificados. "Essas contas têm íntima relação com todo o ciclo da corrupção no Brasil. Juca e Tony forneciam serviços para empreiteiras, como a Odebrecht. Essa operação abre portas para entrarmos num universo desconhecido. Agora é só uma primeira camada", afirmou.

O procurador se referia aos doleiros Vinicius Claret, o Juca Bala, e Claudio Barboza, o Tony, que prestaram serviços para o grupo político de Cabral. Segundo a investigação, para lavar dinheiro sem passar pelo sistema legal, foi criada uma espécie de "banco paralelo", que tinha como 'hub' ou 'câmara de compensação' os dois doleiros.

Baseados no Uruguai desde 2003, para fugir do controle das autoridades brasileiras, ambos delataram o esquema. Depois de um ano e dois meses na prisão, eles foram libertados, conforme previsto em seus acordos de delação. Dois dos doleiros presos no Uruguai, identificados pelos apelidos 'Paco' e 'Raul', prestaram serviços para a JBS, segundo os investigadores.

O procurador Stanley Valeriano disse que a rede de doleiros permitiu que o esquema de Cabral continuasse, mas não serviu só a ele. "Eles dão suporte a várias outras atividades criminosas - evasão de divisas, sonegação, tráfico de drogas. São pessoas que estão em atividade há 20, 30 anos", disse.

Segundo ele, os delatores movimentaram cerca de R$ 1 milhão por dia entre 2010 e 2016.

"A complexidade do esquema é tal qual a de um sistema bancário. Os clientes possuíam contas com débitos e créditos, e, pelo 'bank drop', se tinha controle de depósitos no exterior", afirmou.

Mandados

Até a noite de ontem, o balanço era de 13 mandados de prisão cumpridos no Rio, oito em São Paulo, cinco no Rio Grande do Sul, dois em Minas, dois no Distrito Federal e três no Uruguai. Ainda restavam 20 pessoas a serem presas. O juiz Bretas mandou colocar tornozeleira eletrônica em dois doleiros presos, Henrique Chueke e Marcos Ernest Matalon. O magistrado levou em conta o fato de que Chueke e Matalon têm mais de 80 anos de idade.

Advogados de Cabral afirmaram ontem, em nota, que a operação "Câmbio, desligo" não afeta a defesa do ex-governador.

A Odebrecht disse que colabora com a Justiça no Brasil e nos países em que atua e onde assinou acordo de leniência, como Estados Unidos, Suíça, República Dominicana, Equador, Panamá e Guatemala.

A JBS afirmou que "tudo de conhecimento dos colaboradores da J&F referente aos doleiros citados na Operação Câmbio, desligo' foi apresentado no acordo de colaboração firmado com PGR". A defesa dos doleiros não foi localizada.

A PF não participou da entrevista à imprensa no Rio para a divulgação dos detalhes da operação deflagrada, o que causou estranhamento. Surpreendido pela ausência - uma decisão da PF em Brasília, e não da superintendência no Rio - o procurador da República Eduardo El Hage afirmou que as coletivas são como prestações de contas de servidores públicos à sociedade. A PF não explicou ainda por que não estava presente na divulgação dos resultados da operação.

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