CIA revela

Ernesto Geisel endossou execuções na ditadura

Documento da Agência de Inteligência dos EUA relata teor de ordens do ex-presidente militar contra "subversivos"

00:00 · 11.05.2018

Washington. Um documento secreto de 1974 liberado pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos afirma que Ernesto Geisel, presidente de 1974 a 1979, aprovou a continuidade de uma política de "execuções sumárias" de adversários da ditadura militar (1964-1983).

Ele, que morreu em 1996, teria ainda orientado o então chefe do SNI (Serviço Nacional de Informações) que viria a substituí-lo na Presidência, João Baptista Figueiredo (1979-1985), morto em 1999, a autorizar pessoalmente os assassinatos.

O documento foi tornado público, com exceção de dois parágrafos ainda tarjados, em 2015 pelo governo dos EUA e ontem postado em redes sociais por Matias Spektor, professor de relações internacionais na FGV (Fundação Getulio Vargas).

O professor qualificou o papel como "o documento secreto mais perturbador" que já leu em 20 anos de pesquisa. "Não se sabia que Geisel havia chamado para o Palácio do Planalto a responsabilidade sobre a decisão das execuções sumárias. A cúpula do governo não só sabia como chamou para si a responsabilidade. Isso é que tão impressionante, chocante", disse Spektor.

Em outro ponto revelador, o documento diz que cerca de 104 pessoas já haviam sido executadas sumariamente "pelo CIE", o poderoso Centro de Informações do Exército então comandado pelo general Milton Tavares.

O papel é um memorando assinado pela mais alta autoridade da agência de inteligência dos EUA na época, o diretor da CIA, William Colby (1920-1996). Ele relata reunião que teria ocorrido em 30 de março de 1974, no início do governo Geisel, entre o presidente, Tavares, Figueiredo e o general que iria assumir a chefia no CIE, Confúcio Danton de Paula Avelino.

Segundo o memorando, Tavares ressaltou o "trabalho do CIE contra alvos da subversão interna durante a administração do presidente Emílio Médici".

"Ele enfatizou que o Brasil não pode ignorar a ameaça terrorista e subversiva, e disse que métodos extralegais deveriam continuar a ser empregados contra subversivos perigosos. Sobre isso, o general Milton disse que cerca de 104 pessoas nessa categoria foram sumariamente executadas pelo CIE até agora. Figueiredo apoiou essa política e instou a sua continuidade".

Na ocasião da reunião, segundo Colby, Geisel comentou a seriedade e os aspectos prejudiciais dessa política. Dias depois, em 1º de abril, segundo o diretor da CIA, Geisel comunicou sua decisão a Figueiredo. "Em 1º de abril, o presidente Geisel disse ao general Figueiredo que a política deveria continuar, mas que grandes precauções deveriam ser tomadas para assegurar que apenas subversivos perigosos sejam executados. O presidente e o general Figueiredo concordaram que quando o CIE apreende uma pessoa que pode estar nessa categoria, o chefe do CIE vai consultar o general Figueiredo, cuja aprovação deve ser dada antes de a pessoa ser executada", diz o memorando.

O despacho é a primeira indicação documental conhecida sobre o papel de decisão da alta cúpula da ditadura nas execuções sumárias de adversários.

O Exército informou que os documentos sigilosos relativos ao período em questão e que "eventualmente pudessem comprovar a veracidade dos fatos narrados foram destruídos, de acordo com as normas existentes à época -Regulamento para Salvaguarda de Assuntos Sigilosos em suas diferentes edições".

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