Em 28 anos, Lula troca Marx pela social democracia - Nacional - Diário do Nordeste

TRAJETÓRIA

Em 28 anos, Lula troca Marx pela social democracia

30.06.2008

Os altos e baixos da trajetória do maior líder operário brasileiro, que passou de marxista a social-democrata


Há 28 anos, Luiz Inácio Lula da Silva, líder do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, era eleito o primeiro presidente do Partido dos Trabalhadores (PT), fundado em fevereiro daquele ano. Vinte e dois anos depois ele chegava ao poder como primeiro presidente oriundo das classes operárias do País.

Em quase três décadas, Lula mudou o discurso e as atitudes, transformou-se, como ele mesmo disse, em uma ´metamorfose ambulante´, citando a música de Raul Seixas. O Lula-operário defendia o não pagamento da dívida externa, demonizava o FMI, apoiava e participava de greves, defendia os direitos dos trabalhadores.

Como presidente, o País continuou pagando a dívida externa até desvencilhar-se do FMI. Com relação as greves seu governo defende restrições a greve de serviços essenciais do funcionalismo público, defende a reforma trabalhista e aprovou a reforma da previdência. No Governo, Lula e o PT viraram vidraça. ´Eu aprendi com a minha mãe [a ter humildade para mudar de posição] e passei para os meus filhos: ´vocês só vão aprender a ser pai quando forem pais´´, disse.

A trajetória de Lula pode ser dividida em três fases: a primeira - marxista, de extrema-esquerda; a segunda - de transição e a terceira, que segue até hoje, de centro-esquerda, mais para social-democrata.

No auge da ditadura, Lula enfrentou o regime, questionando as bases o capital (relações entre patrões e empregados), criticava as classes dominantes, os acordos com o FMI e pregava a igualdade. Os discursos inflamados e raivosos, o levaram aos porões do DOPS em 1980, sendo fichado como agitador. O PT retratava o seu maior líder e mantinha-se fechado para alianças e acordos com outras agremiações.

Com esse perfil Lula candidata-se pela primeira vez a presidência em 1989. Vai ao segundo turno, mas perde a eleição para Fernando Collor de Mello, obtém uma expressiva votação de 31,07 milhões de votos (47% dos votos válidos).

A partir daí, contrariando inclusive tendências internas que defendiam o isolamento político do partido, Lula inicia a abertura para acordos com outras siglas de esquerda. Essa postura aponta para o amadurecimento político, o que podemos considerar uma transição.

Foi nessa época que o PT conseguiu projeção nacional, apontando para um amadurecimento político. Em 1994 Lula candidata-se pela segunda vez à presidência e com 17,1 milhões de votos perde para Fernando Henrique Cardoso, ainda no primeiro turno.

Em 1995, depois de 15 anos a frente do PT, Lula deixa a direção do partido e torna-se presidente de honra. José Dirceu é eleito seu sucessor com uma margem pequena. Em 1998, tendo como candidato a vice Leonel Brizola, Lula perde novamente a eleição para presidente. Sua chapa obtém 31,7% dos votos válidos contra 53% de FHC. A partir de então observam-se mudanças nas idéias de Lula, que ficam mais próximas do pensamento social-democrata, culminando nas eleições de 2002.

Com o slogan ´a esperança venceu o medo´, o candidato se apresenta mais conciliador, moderado, moderno, deixando de lado o ranço contra ´a elite dominante´. Mesmo que de vez em quando, já como presidente, ele tenha escorregado em alguns discursos, talvez saudoso dos velhos tempos.

Com o rompimento público da cartilha petista, Lula consegue novas adesões. Quebra o paradigma da esquerda imaculada e junta-se a um partido de centro-direita, tendo como vice um dos empresários mais ricos de Minas Gerais, José Alencar. ´Por isso que há muito tempo eu digo: prefiro ser uma metamorfose ambulante e estar mudando à medida que as coisas mudam. Não tenho a dureza do manifesto de um partido comunista ortodoxo´, revelou. ´Como eu não tenho vergonha e muito menos tenho razão para não dizer que mudo de posição´, afirmou.

BIOGRAFIA

Viagem a São Paulo durou 13 dias


A perseverança e persistência Lula aprendeu com os pais, principalmente com a mãe Eurídice. Pernambucano de Garanhuns, Lula nasceu em 27 de outubro de 1945. Até os cinco anos morou na localidade de Vargem Grande, em Caetés, então distrito de Garanhuns, quando migrou com a mãe, Eurídice, para Vicente de Carvalho (SP), onde o pai, Aristides, já trabalhava na estiva do porto de Santos.

A viagem de pau-de-arara de Garanhuns à São Paulo durou 13 dias. Até hoje Lula lembra a dureza da viagem emocionado. Aos 12 anos começou a trabalhar como engraxate e entregador de roupas em uma lavanderia. Em 1963, formou-se torneiro mecânico no Senai e, em 1964, transferiu-se à metalúrgica Aliança. Foi aí que perdeu o dedo mínimo da mão esquerda, em acidente.

A passagem da vida de operário para a de político aconteceu com a atividade sindical, para a qual entrou em 1966, por intermédio de seu irmão José Ferreira da Silva, o Frei Chico, militante do extinto Partido Comunista.

Em 1972, foi eleito primeiro-secretário do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema. Em 1975, elegeu-se presidente da entidade. Lula compareceu à posse de terno, gravata e colete. O traje virou alvo de comentários. Nunca um sindicalista havia se vestido assim.

Em 1978 ele já dizia que classe trabalhadora não gostava de miséria. Ele negava também que tivesse pretensões políticas, ´Jamais participarei disto [política partidária]´. Em 1979 em meio a uma greve, o sindicato de São Bernardo e Diadema sofreu intervenção do governo federal, e Lula foi destituído do cargo.

Maior mobilização

Em 1980, mais de 100 mil trabalhadores aderiram ao que foi considerado pela imprensa na época de ´a maior paralisação operária da história do sindicalismo brasileiro´. Lula e mais sete sindicalistas foram presos pelo Dops como forma de pressionar a volta ao trabalho.

Enquanto estava preso, a mãe de Lula, Eurídice Ferreira de Mello, morreu de câncer aos 65 anos. Lula foi solto, por intervenção do então deputado Romeu Tuma, para acompanhar o velório e o enterro. Após um mês estava livre. Saiu como mártir e popular. Em 1982, Luiz Inácio da Silva acrescentou o apelido ´Lula´ ao nome e disputou o governo de São Paulo. Em 1986, foi eleito com a maior votação do País para a Assembléia Constituinte.

VITÓRIA

´Lulinha paz e amor´ dá resultado

Para chegar a presidência pela primeira vez, Lula e o PT não economizaram. Foram mais de R$ 35 milhões (o partido tinha pedido autorização para gastar R$ 48 milhões). Teve de tudo, de jatinho a carro blindado. Profissionais foram contratados a peso de ouro, como o marqueteiro Duda Mendonça.

Em três meses de campanha, Lula percorreu 93 cidades, fez 103 comícios, 63 carreatas, permaneceu um total de 147 horas dentro de aviões e percorreu 61.127 km pelo país.

O PT teve o segundo maior tempo de TV à no primeiro turno (5min19s por bloco, ou 21,2% do total, atrás apenas do tucano José Serra, com 10min18s).

O slogan Lulinha Paz e Amor, surgiu de um comício em Rio Branco (AC), quando ele respondeu as acusações de seus adversários, ´Lulinha não quer briga, Lulinha quer paz e amor´, disse. Duda Mendonça foi o principal responsável mudança comportamental de Lula na campanha.

Lula evitou embates diretos e procurou não abordar diretamente temas polêmicos, que pudessem lhe tirar votos. Costurou adesões da esquerda à direta, passando um imagem de negociador e estadista.

ESCÂNDALOS

Abril/2004
Bingos: O ex-assessor da Casa Civil Waldomiro Diniz é filmado pedindo a Carlinhos Cachoeira dinheiro para o PT e propina para si

Maio/2005 Correios: Maurício Marinho, ligado ao deputado Roberto Jefferson, negocia propina com empresários interessados em licitação

Junho/2005 Jefferson denuncia o Mensalão. Dois anos depois, o STF indicia 40 envolvidos, entre eles Marcos Valério, Delúbio Soares e José Dirceu

Julho/2005 Adalberto Vieira, ex-assessor do deputado José Guimarães, é preso com R$ 200 mil numa mala e US$ 100 mil na cueca

Maio/2006 - ex-senador Ney Suassuna foi envolvido na máfia dos Sanguessugas que comprava ambulâncias superfaturadas

AVALIAÇÃO

Investimentos e crises marcam os governos


Os dois mandatos de Luiz Inácio Lula da Silva até agora caracterizam-se pela estabilização econômica, grandes investimentos em infra-estrutura e a ampliação da distribuição de benefícios sociais entre as classes mais pobres. Por outro lado têm sido pródigos em escândalos e quedas de ministros chaves da administração, como foram os casos de José Dirceu e Antônio Pallocci.

Na área social, o Bolsa Família, que reuniu diversos programas do governo FHC, é considerado o carro chefe da área social contemplando 11 milhões de famílias. Já o Fome Zero, que era a grande promessa de Lula fracassou. Outros projetos de destaque são: Luz para Todos, Agricultura Familiar, Programa primeiro emprego, dentre outros.

Com relação a dívida externa, o Governo conseguiu em janeiro deste ano ampliar as reservas internacionais acima do valor da dívida externa total. As reservas brasileiras atingiram US$ 188,5 bilhões e a dívida total somava US$ 184 bilhões. Só que em abril a dívida ultrapassou novamente as reservas ficando em US$ 200,1 bilhões contra US$ 198,6 bilhões das reservas. Uma diferença de US$1,5 bi.

Essa situação garante ao governo capacidade de arcar com sua dívida externa somente com as reservas. O governo também tem se notabilizado por manter os cortes em investimentos públicos, a exemplo da era FHC, o chamado contigenciamento. Para este ano a retenção de recursos deverá atingir R$ 15 bilhões. Por outro lado não tem conseguido reduzir gastos da máquina pública.

Lula conseguiu aprovar a reforma da previdência. Mas agora pena para aprovar a tributária e a política. Além disso, seu governo tem sido marcado por inúmeras crises, corrupção e escândalos, como dos Bingos, Correios, Mensalão, dólares na cueca, Sanguessugas, Gautama, Cartões Corporativos, VarigLog , que culminaram com a queda de vários de seus ministros, entre eles: José Dirceu, Antonio Palocci, Benedita da Silva, Luiz Gushiken, Silas Rondeau e Matilde Ribeiro, entre outros do segundo escalão.

Marcelo Raulino
Repórter

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