´QUESTÃO DE SAÚDE PÚBLICA´

Dilma Rousseff defende legalização do aborto

00:40 · 28.03.2009
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Em entrevista, a ministra não se esquivou de temas polêmicos e disse que aborto é questão de saúde pública

Brasília. A chefe da Casa Civil, ministra Dilma Rousseff, defendeu a legalização do aborto e deu pistas de como poderá agir se suceder o presidente Luiz Inácio Lula da Silva a partir de 2011. ‘‘Tenho um imenso orgulho de fazer parte de um governo que mostrou que é possível crescer e distribuir renda ao mesmo tempo’’, afirmou a ministra em entrevista à revista feminina Marie Claire, que será publicada neste fim de semana.

A ministra não se esquivou de temas polêmicos. ‘‘Abortar não é fácil para mulher alguma. Duvido que alguém se sinta confortável em fazer um aborto. Agora, isso não pode ser justificativa para que não haja a legalização’’, argumentou a ministra.

‘‘O aborto é uma questão de saúde pública. Há uma quantidade enorme de mulheres brasileiras que morre porque tenta abortar em condições precárias’’, afirmou. Dilma também disse que acredita em Deus, outra questão sensível entre os eleitores brasileiros. ‘‘Fui batizada na Igreja Católica, mas não pratico. Mas, olha, balançou o avião, a gente faz uma rezinha’’, disse, sorrindo.

A ministra relembrou sua atuação no período do regime militar, que durou de 1964 a 1985. ‘‘Foi nesse período que ganhei minha sensibilidade social, a noção de que era impossível o País viver com tanta miséria’’, comentou. Ex-militante da luta armada contra a ditadura, Dilma Rousseff contou detalhes dos duros momentos que passou quando foi presa pelos militares, na década de 1970. ‘‘Tomei choques em várias partes do corpo, inclusive nos bicos dos seios. Tive até hemorragia. Depois de apanhar, era jogada nua em um banheiro, suja de urina e fezes’’, contou a ministra.

Para a chefe da Casa Civil, a esquerda cometeu erros de avaliação sobre a situação política e econômica da época. ‘‘Achamos que a ditadura estava em crise, mas, na verdade, o milagre econômico estava apenas começando. A gente não percebeu o quanto eles ainda iam endurecer’’, reconheceu.

Desde que foi apontada por Lula como a sua preferida para disputar a eleição presidencial de 2010 pelo PT, a ministra tem se esforçado para se aproximar do eleitorado. Pesquisas de opinião, no entanto, mostram Dilma ainda muito atrás do principal pré-candidato da oposição, o governador de São Paulo, José Serra (PSDB).

Sob crescentes ataques da oposição, a ministra-chefe da Casa Civil ressaltou que, com o tempo, aprendeu a resistir às turbulências políticas. Dilma Rousseff revelou que, além de ter o apoio do presidente e de colegas de ministérios, consegue se fortalecer quando tem a sensação de que as acusações são injustas.

‘‘É preciso se lembrar de ter um distanciamento e entender que isso faz parte do jogo político’’, disse a ministra, que é responsável pela gestão do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). ‘‘Tem um lado disso que é espuma, que vai embora’’, afirmou.

Ontem, na Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul, Dilma debateu sobre alternativas para enfrentar os efeitos da crise mundial. Os gaúchos entregaram propostas que saíram de audiências públicas realizadas neste mês no Estado. A ministra foi recebida por deputados e lideranças dos setores agrícola e industrial.

´LUTA PAROQUIAL´
Ciro diz que Serra vai ´triturar´ Aécio Neves

Belo Horizonte. O deputado federal Ciro Gomes (PSB-CE), possível candidato à sucessão presidencial, voltou à carga contra o governador de São Paulo, José Serra (PSDB). Ele disse que Serra ‘‘passará um trator’’ sobre o governador de Minas Gerais, Aécio Neves (PSDB), que disputa com o paulista a indicação do partido para a eleição presidencial de 2010. Ciro defendeu uma candidatura alternativa ao que chamou de ‘‘luta paroquial’’ entre tucanos e petistas e disse que pode ‘‘querer ser’’ candidato à sucessão do presidente Lula.

‘‘Estou sentindo que ele (Aécio Neves) vai ser triturado pelo Serra. Tenho 30 anos de experiência e uns 20 de conhecimento de como é que funciona o trator que o Serra usa na política. Não tem limite’’, disse.

Ciro esteve em Belo Horizonte para visita ao prefeito, Marcio Lacerda (PSB), com quem trabalhou no Ministério da Integração Nacional. Lá também participou de debate sobre a crise econômica. Ele acredita que a aliança em torno do governo Lula não deve se manter nas eleições de 2010 e defende uma opção ao ‘‘confronto miúdo’’ entre petistas e tucanos, os dois partidos que vem disputando a cena política.

‘‘A coalizão que sustenta o presidente Lula é tão heterogênea que não há a menor chance, por mais que a gente queira, dessa coalizão se reproduzir para o processo eleitoral’’, ressaltou Ciro.

‘‘Talvez haja a necessidade de outra candidatura, se houver um confronto miúdo, de uma disputa qualificada apenas pelo choque de poder entre PT e PSDB. Não precisa ser eu o candidato, mas, se alguém não expressar essas idéias, eu vou querer ser candidato’’, acrescentou.

Ele também disparou contra o PMDB. ‘‘Se o PT está aceitando, aparentemente de bom gosto, a hegemonia intelectual e moral dessa fração do PMDB que dita as regras, tem muita gente como eu que está profundamente incomodado’’, disse. ‘‘Mas, como nós temos o dever de solidariedade com o presidente Lula, pelo bem que ele está fazendo ao País, a gente vai topando, vai engolindo’’, completou Ciro Gomes.

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