Carnaval do Rio de Janeiro

Cortes trazem politização de volta à Sapucaí

00:00 · 15.02.2018

Rio de Janeiro. A história do Carnaval carioca é mais marcada por enredos positivos do que críticos. Durante a ditadura, muitas escolas fizeram enredos chapa-branca, principalmente a Beija-Flor. No entanto, há exemplos antológicos de desfiles que marcaram, apesar de não terem ganhado. Nos últimos dois anos, críticas sociais e políticas vêm voltando à avenida nos últimos Carnavais.

Há algumas possíveis explicações para essa retomada. A falta de patrocínio privado libera as escolas para fazerem enredos mais autorais. O Carnaval de avenida tem perdido a atenção dos foliões para o de rua, por isso as escolas tentam retomar diálogo com a população, com temas presentes no dia-a-dia dela. Também há a própria gravidade da crise por que passa o país, que torna o assunto inevitável.

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Para o pesquisador de Carnaval Luiz Antonio Simas, o fato de este Carnaval ter trazido muitas críticas políticas não necessariamente representa uma tendência. Para ele, o fenômeno está mais ligado à dificuldade que escolas tiveram de obter patrocínio neste ano, o que as libera para falar do que querem.

"Garanto que escolas que fizeram enredos críticos neste ano podem, no ano que vem, vir com os temas mais alienados do mundo."

Segundo ele, enredos engajados não costumam ganhar mais porque, historicamente, foram feitos por escolas pequenas, como Caprichosos de Pilares e São Clemente.

Ele avalia que, com tantas referências ao mundo real, as escolas neste ano conseguiram romper a "bolha" do Carnaval e dialogar, de fato, com a sociedade, algo que não se via há tempos.

História carnavalesca

No Carnaval de 1989, a mesma Beija-Flor, à época com o carnavalesco Joãosinho Trinta, levou para a avenida o enredo "Ratos e Urubus, Larguem Minha Fantasia", que mostrava mendigos, bêbados e menores carentes do Brasil. A imagem que mais marcaria seria o carro com a imagem de um Cristo encravado numa favela. Censurado pela Cúria Metropolitana do Rio, Joãozinho cobriu o Cristo com sacos de lixo preto e desfilou-o do mesmo jeito, com um cartaz pendurado no peito: "Mesmo proibido, olhai por nós".

Quando já se via a democracia no fim do túnel, a Caprichosos de Pilares levou para a avenida, em 1985, E por falar em saudade, cujo samba lembrava a época em que o país tinha eleições diretas.

Nas décadas seguintes, esses temas perderam protagonismo para patrocínios milionários.

Viu-se os chamados enredos CEP, em homenagens a cidades, Estados e países -inclusive ditatoriais (Beija-Flor, 2015)-, "homenagens a revistas de fofoca (Salgueiro, 2013) e até uma marca de iogurte (Porto da Pedra, 2012).

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