Tuiuti é vice

Beija-Flor conquista 14º título no Rio, com críticas sociais

Mazelas brasileiras foram as temáticas das duas escolas de samba mais bem colocadas no Carnaval fluminense

A escola de Nilópolis conseguiu o título por uma diferença de um décimo na comparação à Paraíso de Tuiuti. O enredo da Beija-Flor traçava um paralelo entre um monstro da ficção e os “monstros” do cotidiano nacional ( Foto: Folhapress )
00:00 · 15.02.2018
Rio de Janeiro. Num dos carnavais mais críticos que já passaram pela Marquês de Sapucaí, a Beija-Flor de Nilópolis foi a campeã de 2018. A escola da Baixada Fluminense garantiu o título só no último quesito, samba-enredo, quando deixou para trás a Acadêmicos do Salgueiro, que liderava àquela altura.

Nessa folia em que os enredos de sátira política deram o tom na Sapucaí, a Paraíso do Tuiuti ainda garantiu um histórico vice-campeonato. A escola de São Cristóvão levou para a Avenida uma representação do presidente Michel Temer como vampiro, dentro de um enredo que abordava a escravidão e os cativeiros sociais da atualidade.

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A terceira colocação ficou com o Salgueiro. Em seguida, vieram Portela, Mangueira e Mocidade, que completam o desfile das campeãs. 

Já a Grande Rio, que teve um carro quebrado, e o Império Serrano, foram rebaixadas.

Com 269,6 pontos na apuração, a Beija-Flor ficou apenas um décimo à frente da Paraíso do Tuiuti. O cantor Neguinho da Beija-Flor, principal intérprete da escola de Nilópolis, na região metropolitana do Rio, disse que a crítica social foi o destaque. 

“A crítica do que acontece no nosso País, a desigualdade (foi o melhor da escola). Muitos sem nenhum e poucos com muitos”, disse Neguinho da Beija-Flor, ainda na Praça da Apoteose, onde as notas dos jurados são lidas na cerimônia de apuração.

Protestos

O tom de protesto tomou conta da cerimônia de apuração. Enquanto as notas das escolas de samba eram lidas pelo locutor da Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa) foram entoados, algumas vezes, gritos pedindo “Fora Temer”.

Completando 70 anos neste 2018, a Beija-Flor, que a cada ano se supera nos quesitos luxo e imponência, fez um desfile atípico. Crítica das mazelas brasileiras, a apresentação em alguns momentos remeteu o público que acompanha carnaval ao histórico “Ratos e urubus, larguem minha fantasia” (1989), do carnavalesco Joãosinho Trinta (1933-2011) – que tratava de luxo, lixo, pobreza e festa e até hoje é um dos mais lembrados da história do sambódromo.

A escola fez um paralelo entre o Frankenstein, de Mary Shelley, personagem que completa 200 anos, e os “monstros nacionais”: a corrupção, as agressões à natureza, o uso indevido de impostos, as disparidades sociais. Foram retratados favelas com traficantes “armados”, brigas de casal e até uma mãe velando um filho policial morto. 

A chamada “farra dos guardanapos”, episódio do esquema de corrupção do ex-governador do Rio Sérgio Cabral (MDB), foi encenada. Componentes vestidos de pastores evangélicos, católicos e muçulmanos se juntaram contra a intolerância religiosa. 

O coreógrafo da comissão de frente da Beija-Flor, Marcelo Misailidis, disse que a vitória da escola foi “a vitória da arte”. “De certa forma, é uma vitória da arte e de uma coisa importante, que luxo não é botar pluma, é dar voz ao povo, à cultura. Resgatar a dignidade desse País”.

Escravidão

Já a Paraíso do Tuiuti, alçada ao grupo de elite das escolas de samba do Rio em 2017, após vencer a segunda divisão em 2016, discorreu, no primeiro dia de desfiles, sobre a escravidão no Brasil e defendeu a ideia de que ela ainda não acabou, apenas mudou de forma. 

O carnavalesco Jack Vasconcelos partiu dos navios negreiros do século XVI e chegou ao “cativeiro social” de hoje, marcado por desigualdades sociais e precarização do trabalho. As últimas alas e o último carro alegórico, bastante aplaudidos, faziam críticas à Reforma Trabalhista e traziam a imagem do presidente Temer como vampiro.

O governador do Rio, Luiz Fernando Pezão, admitiu que houve falhas no planejamento da segurança durante o Carnaval, quando uma série de arrastões gerou pânico na zona sul. “Não estávamos preparados”, disse.

Classificação

1º Beija-Flor* 269,6

 Paraíso do Tuiuti 269,5

3º Salgueiro 269,5

4º Portela 269,4

5º Mangueira 269,3

6º Mocidade 269,3

7º Unidos da Tijuca 269,1

 Imperatriz 268,8

9º Vila Isabel 268,1

10º União da Ilha 267,3

11º São Clemente 266,9

12º Grande Rio** 266,8

13º Império Serrano** 265,6

*campeã

**rebaixadas

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