Radioatividade em debate

Acidente com césio-137 em Goiânia faz 30 anos

Quatro pessoas morreram e 1.153 foram contaminadas, sendo que 151 em estado grave

00:00 · 13.09.2017 por Adriano Queiroz - Editor-assistente

No dia 13 de setembro de 1987, menos de um ano e meio após a explosão na usina nuclear de Chernobyl (Ucrânia), o Brasil começaria a experimentar sua própria grande tragédia envolvendo materiais radioativos.

Em um ferro-velho de Goiânia, um aparelho de radioterapia desmontado, expôs ao meio-ambiente pouco mais de 19 gramas de cloreto de césio-137 e provocou a morte, nos dias que se seguiram, de quatro pessoas (número que pode chegar a 11) e a contaminação de, 1.153 pessoas, sendo que, desse total, 151 ficaram em estado grave.

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Cerca de 112,8 mil pessoas foram monitoradas pelas autoridades sanitárias, mas não foram identificados danos aos seus organismos. O acidente é considerado o maior do mundo envolvendo radioatividade, quando desconsiderados os ocorridos em usinas nucleares. Ele atingiu a categoria 5 na escala internacional de acidentes radiológicos, que vai de zero a sete. A fonte contaminante foi encontrada por dois catadores de lixo no prédio abandonado do Instituto Goiano de Radioterapia.

O primeiro a entrar em contato com a substância radioativa foi o dono do estabelecimento a quem eles venderam o aparelho, Devair Ferreira. Após desmontar o aparelho com a ajuda de dois funcionários, Devair, encantado com o brilho azulado emitido pelo pó no escuro, o mostrou à sua família. Menos de dois meses depois, ele perderia a esposa, uma sobrinha e duas pessoas que trabalhavam com ele.

A primeira vítima foi Leide das Neves Ferreira, de seis anos, que chegou a ingerir o cloreto de césio e morreu no dia 23 de outubro de 1987. No mesmo dia, Maria Gabriela Ferreira, 37 anos, também faleceu.

Novos indícios

Em 1996, três médicos, um físico e o dono do prédio, todos ligados à clínica abandonada, foram condenados por homicídio culposo. Dois anos depois todas as penas foram extintas por indulto concedido pelo presidente Fernando Henrique. No último dia 3, o Fantástico publicou reportagem em que um dos sentenciados pelo acidente, o físico Flamarion Goulart contestou a versão oficial do acidente.

Segundo ele, o equipamento, encontrado pelos catadores e depois desmontado, não estava na clínica abandonada, mas sim num hospital filantrópico de Goiânia, no dia do acidente.

A cápsula de Césio-137 teria sido levada de volta ao Instituto Goiano de Radioterapia, por razões desconhecidas por Goulart.

O físico afirma, no entanto, tê-la visto no Hospital Araújo Jorge, onde ele e os demais médicos condenados trabalhava. O 1º secretário da Sociedade Brasileira de Medicina Nuclear (SBMN), Dr. Rafael Lopes relembra que "as pessoas envolvidas eram em sua maioria bastante pobres, com um baixo nível de escolaridade e extremamente carentes".

Ele acrescenta que, "outros fatores contribuíram para agravar a situação na cidade. Dados meteorológicos indicaram que, no período provável da abertura da fonte, em 13 de setembro, até o dia em que foi reconhecida a existência do acidente, em 29 de setembro, houve forte precipitação de chuvas".

Medidas de segurança

Apesar de não ser possível descartar um novo incidente como o de Goiânia, o vice-presidente da Associação Brasileira de Energia Nuclear (ABEN), Ivan Salati, observa que "foi proibido no País o uso do césio-137 em equipamentos de radioterapia", seguindo regras dos principais organismos internacionais de segurança nuclear. Além disso, ele avalia que "o uso dos sistemas, que controlam desde a importação do material radioativo ou equipamentos geradores de radiação às licenças das empresas e entidades que vão utilizá-los e as autorizações das pessoas licenciadas para trabalhar nesse tipo de atividade, tornou mais efetivo administrar e prevenir acidentes".

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